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Acompanhei o 11º Simpósio Internacional de Recifes de Corais (ICRS) 2008 por diversos sites e blogs, além da sala de imprensa oficial. Cada um contou uma novidade/discussão/idéia mais interessante. Resumo aqui alguns dos tópicos que mais me chamaram a atenção durante a semana.

ICRS-2008

 

1) Logo no 1º dia de simpósio, o NOAA liberou seu relatório sobre o estado dos recifes de corais americanos e ilhas do Pacífico. As maiores ameaças, segundo o relatório (e resumidas pelo The Great Beyond) são:

– mudanças climáticas e esbranquiçamento de corais;

– doenças coralinas;

– tempestades tropicais;

– desenvolvimento de áreas costeiras;

– turismo e recreação; – pesca comercial;

– pesca recreacional e de subsistência;

– danos das embarcações;

– sedimentos/lixo marinho;

– espécies invasoras aquáticas (e a mais nova a aparecer na mídia é uma espécie de alga cultivada para a indústria alimentícia).

De acordo com o NOAA, no lado do Atlântico, notícias ruins: quase 50% dos recifes na região Caribenha já foram dizimados pelo aumento da temperatura do mar local. Do lado do Pacífico, nem tanto. O estado do Havaí destaca-se pela proteção governamental, mas deixa a desejar em relação à fiscalização do excesso de pesca: 75% dos peixes recifais das ilhas desapareceram (link em pdf).

2) A primeira palavra a se destacar entre as palestras, de acordo com Rick MacPherson, foi “acidificação” – ou envenenamento por CO2. Explicando: o pH do mar é em média 8.2, com variações muito pequenas. (Para detalhes mais minuciosos sobre o cálculo do pH marinho, leia esse post do Real Climate.) À medida que a quantidade de CO2 aumenta na atmosfera, parte dele se dissolve no mar. Ao reagir com os íons de carbono (CO3–) dissolvidos em água e parte fundamental do exoesqueleto dos corais, ele libera íons HCO3- (ácidos), que vão fazendo o valor do pH cair aos poucos – e tornam então o mar “mais ácido”. Rick nota que uma queda de 0.5 unidades já é suficiente para dissolver a estrutura coralínea, e estudos vêm mostrando que algumas espécies de coral sobrevivem sem o exoesqueleto calcário (a hipótese do “coral nu”link em pdf). Entretanto, toda a teia de vida que depende deles como substrato (esponjas, anêmonas, ascídias, etc.) se deteriora.

Rick MacPherson também observou que esbranquiçamento é um problema menos discutido dessa vez – e infere que estamos passando talvez da fase de discussão e preocupação com os problemas agudos para os problemas crônicos. E termina seu post com uma mensagem positiva:

“We need to make our messages resonate not just among us coral geeks, but outside these symposium walls and into policy makers awareness. We need to encourage and empower our leaders and citizens to make smart choices and think a bit further than their own lifetimes. It’s not too late, but time is not on our side. What a truly incredible testament it would be to the human species if we could say we faced this global challenge of ocean acidification but managed to avert it.”

Rick fez em seu “Coral Notes from the Field”/”Malaria, Bedbugs, Sea lice and Sunsets” a melhor cobertura do simpósio da blogosfera, em minha opinião. E ainda mostrou de quebra as “peças de arte” que foram alguns posters apresentados. Excelente.

Coral "tree"

3) Várias espécies de corais entraram infelizmente para a lista da IUCN de ameaçados de extinção. Cientistas uniram dados e forças e fizeram um levantamento que identificou que 27% das espécies formadoras de recifes estão seriamente ameaçadas e 21% estão quase ameaçadas (“near-threatened”). Isso representa um terço de todas as espécies de corais existentes no planeta passíves de desaparecer. Alex Rogers, da Sociedade Zoológica de Londres, faz 2 comentários fundamentais: a) com esses dados, fica claro que apenas os anfíbios são mais ameaçados que os corais na atualidade; b) se esse nível de destruição estivesse acontecendo em um ecossistema terrestre, já estaria todo mundo gritando/protestando/etc. Entretanto, ninguém parece se preocupar com essa terrível realidade de perda de biodiversidade de um grupo inteiro. Só lembrando que 2 milhões de espécies dependem dos recifes de coral para sobreviver, incluindo aí 1/4 de todos os peixes marinhos existentes.

Vale ressaltar também que entre os recifes mais bem preservados do planeta foram citados no simpósio os de Apo Island, Puerto Galera e Verde Island, todos nas Filipinas. O responsável pelo programa de conservação da reserva de Apo, Dr. Angel Alcala, recebeu em 1992 um prêmio pelo excelente trabalho de serviço público que permitiu a recuperação sustentável do ecossistema e da comunidade pesqueira.

4) O Projeto “Sea Around Us”, de Vancouver (Canadá) reportou evidências de que os dados e estatísticas que a maioria dos governos apresentam à FAO sobre quantidade pescada é subestimado (link em pdf) – ou seja, pesca-se, consome-se e negocia-se muito mais que o que está no papel. Eu li essa história primeiro no blog Regarding Henry, que repassou as notícias do simpósio por toda a semana.

5) Aproveite e veja as fotos do concurso de foto sub do simpósio. Há boas, médias e ruins. A categoria “Reef scientists at work” achei meio goofy, a categoria “Reefs at Risk” está bem representativa dos principais problemas. Já a categoria “Macro” e a categoria “Reefscapes” tem fotos belíssimas e foram minhas favoritas.

6) E para finalizar o resumão, uma ótima notícia para o Brasil apresentada no simpósio: os recifes de Abrolhos foram “redescobertos”, pois pesquisadores da Conservation International junto à UFES e à UFBA mostraram que eles parecem ser maiores que imaginávamos. São muitos quilômetros a profundidades grandes – esse talvez o motivo pelo qual eles passaram incólumes até hoje. A notícia sugere que mais espécies endêmicas podem ser descobertas, mais área recifal que precisa ser cuidada e se tornar parte de reserva de Abrolhos. Há esperança, e isso na atual conjuntura do ambiente marinho é bom. (O João me enviou essa notícia maravilhosa, que repasso com carinho pra vocês.)

Abrolhos

Tudo de coral sempre.

UPDATE: Uma das minhas blogueiras favoritas, Jennifer Jacquet, comenta sobre o simpósio em seu blog e sobre suas constatações da pesca excessiva.

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- Hoje é aniversário da madrinha deste blog. Parabéns, querida Liliana!! :)

  • Flávia Nogueira

    Oi Lucia! Fiquei encantado com o pH do oceano, não tinha nem noção. Como também não tenho noção alguma sobre corais :(
    A única coisa que a princípio posso comentar aqui é sobre boi! hehehe. É que lendo que os índices de pesca são abaixo da realidade, o mesmo ocorre com os frigoríficos de abate de bovinos. Eu bem sei, in off, que se abate mais do que é relatado, mesmo porque alguns frigoríficos abatem sem relatórios e documentação, para que se livrem dos impostos… Não seria diferente com a pesca e frigoríficos de peixe. Infelizmente.
    Beijos sub-aquáticos para vc.

  • http://luciamalla.com Lucia Malla

    Flávia, eu imaginava q a coisa era mais espalhada… uma vergonha isso sinceramente. Mas é como vc falou, eles fazem tudo pra se livrar dos impostos, q devem cair ser contados por cabeça abatida, certo? O problema se agrava no caso dos peixes pq eles só contam os peixes q vão para consumo – e quando a rede passa, vários peixes não-consumíveis são capturados junto (bycatch) e simplesmente jogados fora depois. Apodrecem. Uma morte inútil, o q é triste.
    Beijão pra vc e bom fim de semana! :)

  • Patsy

    Lucinha, que linda essa última foto, e se não tivermos conciência, o mundo todo digo, cada vez ficará pior, com essas pesquisas feitas é tão surreal, vivemos naquele mundinho (tiro vc dessa) que no meio da correria nem lembramos disso, pena, muita pena mesmo. Um beijinho