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Carne de cação barata

Os que me conhecem de outros carnavais (e acho que os que pouco me conhecem também) percebem que há tempos eu venho martelando aqui nesse blog sobre a questão da matança dos tubarões mundo a fora. O quanto esse grupo de animais é importante pro ecossistema marinho, o quanto vem sendo ameaçado, a ponto de pesquisadores pelo mundo e da própria ONU já terem declarado que os tubarões devem ser prioridade máxima de conservação no mundo atual. Minha preocupação em disseminar tal informação (por demais esquecida pelas pessoas em geral) é tamanha que fiz questão de enfatizar isso logo no primeiro tópico do guia Malla de consumo de peixes:

“1) NUNCA compre cação. NUNCA coma cação, independente de onde você more. Tubarões ou cações são peixes ameaçadíssimos de extinção no mundo inteiro e ao comê-los, você incentiva o tenebroso comércio de barbatanas pra China.

Há outros peixes bastante ameaçados também, como o atum, o bacalhau e o salmão. E para todos eles, o preço da carne é proporcional à sua raridade, com o bacalhau liderando o ranking dos mais ameaçados e, portanto, dos mais caros. Razoavelmente lógico, não? Mas então… por que o mesmo não acontece com o tubarão? Por que a carne de cação é das mais baratas vendidas do mercado? Hoje, eu encontrei os seguintes preços no portal do CEAGESP:

– Polvo: R$14,00/kg

– Camarão rosa pequeno: R$12,00/kg

– Linguado: R$10,00/kg

– Badejo: R$14,00/kg

– Salmão: R$23,00/kg

– Robalo: R$22,50/kg

– Atum: R$11,00/kg

– Pescada grande: R$5,00/kg

– Tilápia: R$2,50/kg

Cação: R$4,50/kg

 

Sendo que no varejo o produto é vendido mais caro. Há peixes mais baratos e sustentáveis, como a tilápia. Mas dentre aqueles extremamente ameaçados que estão à venda no mercado brasileiro, o cação é sem dúvida o mais barato de todos. Uma contradição que tentarei explicar aqui. No Brasil, não é proibido pescar o tubarão e vender sua carne no mercado. É proibida pela portaria 121-N do IBAMA (link em pdf) a prática do “finning” – ou seja, matar um tubarão apenas para retirada das barbatanas, descartando a carcaça do animal no mar, onde o bicho tem pouquíssimas chances de sobrevivência sem a barbatana para auxiliar em seu deslocamento. E os barcos de pesca brasileiros não fazem isso. Nas palavras de um pesquisador, que lemos na reportagem da Folha de ontem:

“Hoje, a prática do “finning” em águas brasileiras praticamente não existe. Os barcos nacionais aproveitam 100% dos tubarões capturados e os estrangeiros têm observadores de bordo.”

E será que por isso então é ok matar o animal? O número de tubarões perdidos por ano continua aumentando, o dano ao ecossistema continua o mesmo, com ou sem finning, independente da semântica da lei. A lei, nesse caso, é mero subterfúgio conivente a interesses financeiros maiores. Todo pescador no mundo sabe que a barbatana é o bem mais cobiçado de um tubarão, por causa da demanda no mercado asiático. Quando um pescador pesca um tubarão, em geral a primeira ação que toma é separar a barbatana, ainda em alto-mar, e pôr para secar. E o resto do bicho vira subproduto – porque o principal já está garantido para o comprador chinês/taiuanês.

Na maior parte do mundo, a carcaça vai pro mar. No Brasil, sobram nos congeladores dos barcos quilos e mais quilos de carne. Que são levadas ao continente para comércio. Por uma razão cultural (?), os brasileiros consomem a carne do cação, que é um lucro “colateral” limpo para o pescador. O gerador de lucro mais controverso, a barbatana, já está longe há tempos quando você vê a carne de cação no mercado. O “finning”, único e exclusivo, na definição simples da lei, realmente não existe no Brasil. Ele existe mascarado pela venda da carne de cação. E é essa brecha da legislação do IBAMA que permite à indústria pesqueira nacional continuar dizimando tubarões – porque a carne é consumida. Barata, ainda por cima – quanta ironia…

Para mudar essa situação em prol de um ecossistema marinho sustentável, a meu ver é fundamental que se proíba a pesca de tubarões, sua comercialização completa. Tornando essa atividade ilegal, pelo menos o IBAMA poderá coibir alguma parte desse comércio sob o amparo da lei. Seria melhor ainda se fosse possível elaborar um programa de pesca sustentável do tubarão, que acomodasse os pescadores artesanais, sua nutrição, cultura e a manutenção do ecossistema saudável; mas na atual conjuntura de quase-extinção de várias espécies de tubarões, isso soa infelizmente deveras utópico.

Deixo então, para reflexão de todos que porventura passem por aqui, duas imagens do “processamento” de um tubarão em alto-mar. As fotos foram tiradas a bordo de uma embarcação de pesca de bandeira brasileira em território brasileiro.

Carne de cação

Pescador retira barbatana assim que o tubarão chega, no convés do navio.

Em seguida, barbatanas secando ao sol.

Tudo pelos tubarões sempre.

Quem é o real predador?

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– Ressalto aqui o fato de que os consumidores de carne de cação também não sabem que, além de toda essa questão ecológica, comer carne de animais de topo de cadeia alimentar, carnívoros, aumenta consideravelmente a quantidade de mercúrio no organismo da pessoa. Leia aqui as recomendações do FDA para consumo desses animais por mulheres grávidas e crianças.

– Publicado também no Faça a sua parte.

P.S.: Se o conteúdo deste post lhe ajudou ou esclareceu sobre a carne de cação, e você gostaria de contribuir para a manutenção deste site, use este link. A blogueira agradece seu interesse e colaboração! 🙂


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