Hoje é o dia Mundial do Meio Ambiente, e como todos devem saber, eu sou uma grande apaixonada por esse tópico de discussão. O ambiente, para mim (e eu gostaria que fosse assim para todos…) é um bem valiosíssimo. Mas, como tudo na vida, é uma questão de prioridades muitas vezes pessoais: há os que acham outras causas mais valiosas e lutam por ela. Portanto, pensar no valor do ambiente é uma escolha também pessoal, e eu entendo isso.

Mas o motivo da opção ambiental vem se alterando. O economista indiano Pavan Sukhdev, gerente do Deutsche Bank, foi recentemente escolhido pela União Européia para achar o “real valor econômico” do ambiente no mundo. Na prática, se debruçou sobre a questão básica de quanto vale um pedaço de floresta ou um teco de mar, o que não é uma idéia muito recente. Mas é um trabalho difícil, porque esse valor embute sem percebermos inúmeras variáveis. Mas Pavan aceitou esse desafio de gigantes e semana retrasada, na Conferência Mundial de Biodiversidade, mostrou os primeiros resultados do seu “The Economics of Ecosystems & Biodiversity (TEEB )” – que foi curiosamente estabelecido e assinado na fofa cidade alemã onde morei, Potsdam. Repasso em poucas palavras os números preliminares do maravilhoso artigo do Der Spiegel sobre o tema aqui:

– Se o nível de desmatamento das florestas tropicais continuar no ritmo atual e nada for feito para contê-lo, o PIB mundial diminuirá até 2050 em 6%, o que gera um valor de perdas de 3.1 trilhões de dólares.

– Para se construir e manter um sistema de proteção de todos os ecossistemas do planeta de forma eficiente, o custo seria de 45 bilhões de dólares anuais. O retorno desse investimento é da ordem de 4.4-5.2 trilhões de dólares. Ou seja, para cada dólar investido, o retorno é mais de 100 vezes maior.

– Aumentar em 20% as áreas marinhas preservadas custaria à pesca mundial uma perda de 270 milhões de dólares anuais. A longo-prazo, entretanto, manter os estoques de peixe seguros salvaguardaria 70 a 80 bilhões de dólares para a indústria pesqueira. Se nada for feito, já se previu que em 2050 os estoques de peixe estariam esgotados, e com isso a perda econômica da pesca seria de 100 bilhões de dólares e acabaria com 27 milhões de empregos – o que no final gera um problema social maior ainda.

Ainda são poucos números que Pavan pôde apresentar. Mas mesmo sendo poucos, já demonstram o quão bom investimento econômico é, a longo prazo, cuidar da natureza. O problema todo é exatamente esse: é investimento a longo prazo. E a maior parte das pessoas não está acostumada a pensar nessa escala temporal.

A curto prazo, desmatar, poluir, pescar e outras atividades predatórias geram mais dinheiro a priori. É investimento imediato, egoísta, sem pensar no futuro. É a velha política do “primeiro o meu, depois o dos outros”. Porque o mundo no futuro não será meu, e sim “dos outros”: meus filhos, netos, bisnetos, etc.

Mas educação financeira é privilégio de poucos na sociedade atual – basta olhar pro nível de endividamento em frivolidades da média da população. Se realmente fôssemos financeiramente educados, olharíamos para os números que Pavan apresenta como uma grande oportunidade de enriquecimento sustentável, nossa e dos futuros outros que aqui habitarão. Tudo que Pavan diz é que um mundo economica e ambientalmente melhor é possível, basta tomarmos as decisões certas no momento adequado, que é hoje.

O valor do ambiente já foi inestimável. A busca pela estimabilidade talvez traga mais poder de decisão para governos e povos ecologicamente conscientes. Eu espero imensamente que chegue logo o dia em que as pessoas pensarão em cuidar dos ecossistemas porque também faz bem pro bolso delas. Pelo menos, é uma forma mais tangível de convencer a maioria das pessoas de que preservar é o futuro.

Um valioso dia do meio ambiente para todos, a maior riqueza que a gente tem disponível na nossa vida.

Tudo de verde e azul sempre.

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– Para mais posts sobre meio ambiente, o nosso querido bloguinho coletivo de ambientalismo, o “Faça a sua parte”, está com os demais da blogagem coletiva de hoje, para celebrar a data importantíssima – e esse texto faz parte dessa iniciativa. Participe das discussões, dos debates, aprenda, envolva-se: o ambiente sempre agradece a preferência. 🙂

– Aproveito a oportunidade para extravazar outra alegria suprema nesse dia 05 de junho (essa muito mais egoísta e off-topic, por sinal): o tricolor do meu coração vai disputar a final da Libertadores. Evento inédito que me reforçou o quanto as impossibilidades podem um dia se tornarem uma realidade boa para todos. No caso, para a nação das Laranjeiras. 😀

  • ramosforest

    Valorar a natureza é uma faca de dois gumes, pois depende de quem está valorando e para que/quem o faz.
    Valorar uma floresta resulta em uma atividade econômica. E enquanto não existir uma verdadeira conscientização ambiental, a economia e a ecologia serão concorrentes.

  • Silvia D. Schiros

    Lucia: uau, uau e uau. Adoro os teus textos, sempre ricos em informações de várias fontes, além do teu ponto de vista sempre muito ponderado e lógico.
    Eu acho importante a gente buscar subsídios para a causa ambiental em todas as fontes, inclusive (e, no mundo capitalista de hoje, principalmente) a economia. Como comentei num dos posts do debate (acho que foi um seu), o argumento que vale para mim pode não servir para outra pessoa. Mas a gente pode encontrar argumentos que sirvam para todos. 🙂

  • Allan

    Lúcia,
    Também acho que o único modo de mudar a atual situação é mostrar o quanto lucrativo pode ser adotar políticas ambientais corretas. Os governos deveriam ter como prioridade a sustentabilidade e autonomia.
    Os EUA devolveram à Itália as 20.000 toneladas de escória nuclear, negando-se a armazená-las no deserto de Utah, junto com aquelas americanas. A Itália não tem onde armazenar tais resíduos e decidiu voltar à energia nuclear. Parece filme dos Três Patetas.

  • João Carlos

    Atribuído a Napoleão Bonaparte: «Um homem lutará com muito mais empenho por seus interesses do que por seus direitos.»
    Já que falar “à consciência” não tem dado certo, falar “ao bolso” pode ser mais eficaz… Pelo menos, está em uma língua que os fulanos conseguem entender… (quer dizer… qualquer um com mais de 1 Bush de QI – sabe 0°K?…)

  • Luma

    Neste sentido acho interessante o que a Alemanha vem fazendo de olho no futuro. Infelizmente grandes investidores estão de olho em possíveis consumidores e não nos poupadores ou aqueles que não lhes dão retorno de forma alguma. No caso, fica parecendo um acordo de cavalheiros, algo para polir a imagem. Eu acho lindo esses discursos e projeções, mas quero um dia ver saí-los do papel.

  • Ramosforest, entendo a faca de 2 gumes, mas acho q é importante pensar dessa forma economicamente. Pq tem muita gente teimosa, q só entende as coisas quando afeta o bolso. Se mostramos que é econômico preservar, os “teimosos” pensarão com mais carinho no assunto.
    Exatamente, Silvia. A pluralidade é a base da boa análise – e da boa escolha ambiental. A gente precisa ver diversas faces da questão, entendê-las, para adequar da melhor forma possível às condições que vêm pela frente.
    Allan, essa história do lixo nuclear… eu li lá no seu blog e até agora estou pasma com toda a estrutura da palhaçada.
    João, é exatamente uma questão de linguagem… falar à linguagem de quem toma grandes decisões para um país ou para uma grande corporação. Agora QI acima de Bush… qqer um na Terra, né? 😀
    Luma, aos poucos eles vêm saindo do papel. O próprio fato da UE estar se mobilizando atrás desses dados já mostra uma intenção de decisão à vista. Aguardemos com esperança. 🙂
    Beijos a todos.

  • Maria Augusta

    O valor econômico da sustentabilidade é um argumento de peso, o hic é que os lucros são projetados no futuro, o que como você disse, contraria a mentalidade do “eu quero aqui e agora”.
    Mas todos os argumentos são validos, o importante é disseminar a idéia de que preservar o planeta é importante.
    Beijos.

  • Emília

    Interessantíssimo o estudo, por mais polêmicos que sejam os métodos ou os interesses. Acredito que os números possam vir um dia a finalmente fazer o efeito que as palavras não tem conseguido fazer.