Hoje é o feriado do Dia do Trabalho, e como estamos nesse blog festejando a Semana dos Recifes de Corais, é mais que apropriado que o post de hoje seja dedicado a mostrar como é o trabalho de pesquisa num recife. Na realidade, há inúmeras formas de se conduzir pesquisa científica num recife de coral, mas eu vou me ater àquela que André vem exercendo há alguns anos nas Ilhas Marshall, o levantamento de espécies.

Um levantamento de espécies, a grosso modo, simplesmente conta quais espécies estão presentes numa determinada área – e em que quantidade. Há levantamento de plantas, de algas, de peixes e por aí vai, dependendo do interesse do pesquisador no local estudado. O levantamento feito nos atóis das Marshall foi generalizado, já que nada se havia relatado cientificamente sobre as espécies ali residentes. Um grupo grande de pesquisadores (cerca de 15), organizado por uma ong (o NRAS) auxiliou no trabalho, e cada pesquisador em sua especialidade, contando com o apoio de voluntários locais que eram treinados para o trabalho, ia identificando as espécies de forma sistematizada a cada mergulho. E como é a forma sistematizada adotada por eles?

A metodologia utilizada foi a dos transectos. Estica-se uma trena de 50m embaixo d’água a diferentes profundidades (10, 20 e 30m) no mesmo recife de coral. Três times, um a cada profundidade, percorrem a área fazendo ziguezagues em torno da trena e anotando os bichos que vêm ao redor, de acordo com sua especialidade – André contava e identificava os peixes, outras pessoas faziam o mesmo com corais, invertebrados, megafauna, e por aí vai. Cada mergulho, 1 transecto de 3 diferentes níveis.

 

 

 

 

 

 

Esquema de como o transecto é feito: Uma linha reta embaixo d’água onde vai-se ziguezagueando e contando. Abaixo, a foto mostra uma pesquisadora contando os invertebrados de uma área ao redor do transecto. A largura do transecto varia de acordo com o grupo que a pessoa está identificando.

 

Pesquisador tabulando dados

Os pesquisadores ficam distribuídos em diferentes níveis embaixo d’água para o levantamento das espécies locais. Abaixo, um pesquisador tabula os dados durante o mergulho.

Mas, para você fazer uma boa estimativa da população marinha de um local, você precisa fazer essas medições em diferentes áreas. Porque de nada adianta num atol ou numa ilha você escolher um local e medir – o dado é muito puntual. Se você quer ser o mais próximo da realidade possível e cientificamente relevante, é preciso dar força estatística (controle, replicatas e afins). Ou seja, você precisa levantar as espécies em diferentes locais da área de interesse várias vezes. Questão de estatística: aumenta-se o n amostral para que a extrapolação se aproxime do número real. E como você escolhe que locais medir?

O melhor é ser o mais aleatório possível, pois assim você terá uma amplitude de dados maior e mais variada. Entretanto, há variáveis que impedem às vezes a aleatoriedade total; por exemplo, uma área de mar muito agitado. Dependendo do local e do dia que você escolhe para o mergulho, corre-se risco de vida pelas condições do mar e de correntes – é mais seguro pro time não arriscar. Há áreas também que são sabidamente mais ricas de espécies, ou porque os ilhéus sempre pescam lá (conhecimento verbal) ou porque são passagens de canal, entre dois grandes recifes (em geral, canais agregam muitos nutrientes e com isso, atraem mais animais). Na hora de escolher os locais de coleta de dados, é interessante incluir pelo menos uma área de canal. No exemplo do trabalho nos atóis das Marshall, são feitos vários transectos em diferentes locais do atol em questão – em Namu, foram 21.

Um esquema das áreas amostrais onde se contou espécies no atol de Namu. Cada ponto vermelho indica um ponto de mergulho. (Esquema retirado de um dos trabalhos publicados pelo NRAS.) Abaixo, uma visão aérea de um atol, com a barreira recifal que o circunda dos 2 lados.

Após coletar os dados, você começa a analisá-los na forma de tabelas. Ao organizá-los, padrões começam a surgir: você percebe que a área X tem maior número de peixes que a área Y, ou que uma certa espécie quase extinta ou endêmica de ostra só é encontrada na área Z. Nesse ponto, é importante a experiência do pesquisador responsável pelo levantamento de seu grupo animal, pois ele saberá identificar espécies mais ameaçadas, espécies em desequilíbrio ecológico, e afins. Faz-se então cálculos que mostrem os locais mais biodiversos e/ou de maior importância ecossistêmica (berçários, áreas de alimentação intensa, etc.)

Comida de expediçãoBarco de expedição

Expedição SurvivorCansaço de expedição

Expedições de levantamento de espécies em locais remotos requerem um espírito aventureiro à la Survivor bastante aguçado. Tudo é muito improvisado, como a comida e os acampamentos para dormir. Além disso, há um trabalho fenomenal para se montar os equipamentos de mergulho – encher os tanques de ar requer muitas horas encarando um compressor – e no final dos mergulhos do dia, estão todos exaustos, como vemos na foto em que os pesquisadores dormem “jogados” no convés do barco da expedição. Não é bolinho querer salvar os recifes de corais remotos do planeta…

No caso do trabalho das Ilhas Marshall, depois de computar os dados e chegar à conclusão de que áreas são as mais biodiversas, preparou-se um relatório completo que foi entregue ao governo do país e às comunidades locais. Nesse relatório, com o respaldo dos dados coletados pelo levantamento de espécies, havia sugestões das áreas de cada atol que eram mais interessantes se tornarem parques ou reservas, onde a política de proibição da pesca seria mais essencial para a manutenção do ecossistema como um todo. É a partir de levantamentos assim que a maioria das reservas marinhas são criadas: seja com dados sobre diferentes espécies ou de uma única espécie extremamente ameaçada.

Algumas das áreas sugeridas pelo relatório final já se tornaram efetivamente reservas – ou seja, a ciência servindo de respaldo para uma decisão política. Os ilhéus que moram nesse minúsculo país do Pacífico obviamente precisam pescar para sobreviver, é impossível fechar um atol inteiro como reserva e sufocar a população local – viverão de quê e como? Com o relatório divulgado nas comunidades sobre a forma de palestras, em muitos desses atóis, mesmo sem a designação de “reserva” pelo governo central, os moradores aprenderam a evitar a pesca em locais onde agora sabem que são o sustentáculo da cadeia alimentar ao redor. É fundamental também envolver a comunidade e treiná-los a fazer esse tipo de trabalho de levantamento, entendendo a importância do mesmo, e isso foi feito através da participação de estudantes locais durante os mergulhos para coleta dos dados. Dessa forma, se torna mais fácil fazer uma escolha consciente e sustentável, feita com educação ambiental e esforço coletivo entre pesquisadores e comunidades integradas. Um trabalho visando ao futuro.

Dois níveis de educação ambiental se beneficiam com os levantamentos das espécies nos recifes de corais das Ilhas Marshall: a comunidade local, que habita a área e aprende que espécies e que locais podem ser pescados sem perturbar demais o ecossistema; e o governo, que pode tomar decisões sobre reservas marinhas com base nesses dados – na foto, a prefeita do atol de Ailuk chega em seu barquinho para uma reunião com a equipe de pesquisadores que está trabalhando lá.

Com isso, ganham todos: os humanos que ali vivem e o ecossistema dos recifes de coral, que se mantém saudável.

Tudo de coral sempre.

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– Há a intenção de, com esses dados, pleitear na ONU que os atóis de Rongelap e/ou de Bikini, fechados às pessoas por 50 anos por causa da contaminação radioativa, se tornem um Patrimônio Natural da Humanidade. Fingers crossed.

– Durante a Semana do Recife de Coral, eu já: dei uma geralzona sobre os corais; comentei sobre o que virou o atol de Bikini depois dos testes nucleares; celebrei o habitante mais famoso dos recifes; e mostrei como vemos as cores dos recifes.

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Lista completa dos posts da Semana do Recife de Corais no blog da Malla:

Semana de Recifes de Corais 2008

Os corais de Bikini

Procurando (e encontrando) Nemo

Mar de cores

O trabalho no recife

Sherman’s Lagoon

  • Deep Sea News

    Coral Week across the AmericasThe always thoughtful Mark Powell of Blogfish says corals are “the canary in the coal mine”, and points out a short list of political actions you can take to help preserve fragile coral reef habitats. Commenter Jives from the New…

  • João Carlos

    Enquanto eu ia lendo seu artigo e ia me lembrando dos estudantes de biologia da UFF que, na década de 1990, faziam o levantamento da fauna do manguezal lá na Ilha das Flores, me dei conta de um paradoxo: caramba!… somos capazes de enviar sondas robóticas para explorar os planetas, mas para realizar um trabalho de levantamento da fauna e flora submarinos ainda dependemos da velha “mão-de-obra”!…
    Eu só fico imaginando o que um belo dispositivo de câmeras submarinas fixas, sonares, microfones e sensores diversos, não poderia economizar em “homens-hora” a mera coleta de dados estatísticos. E não vale dizer: “isso custa caro”… Caro custa um submarino nuclear ou um porta-aviões…
    Claro que o André Cia aproveitam para encher o mundo de beleza com suas fotografias (e quem disse que isso seria dispensável?…), mas não custava nada de exorbitante montar um sistema semi-automatizado. Se fosse um Condomínio de Luxo e o pretexto fosse “segurança”, um sistema desses saia na hora…
    Ah!… Deixa pra lá… Isso é pessimismo de velho rabugento… Vamos aproveitar as fotos do André que é melhor!…