Há algum tempo, escrevi sobre um email que recebi de Leonardo DiCaprio (leia o post para entender como…), enfatizando o problema da possível extinção dos ursos polares por causa do aquecimento global. O efeito colateral de escrever aquele post, na época, foi de que comecei a me interessar sobre as chamadas “ecocelebridades”, artistas e wannabes que de alguma forma emprestam seu tempo e nome às causas ambientais.

Antes de explicar meus pensamentos viajantes sobre o tema, gostaria de deixar claro que eu entendo perfeitamente o nível de jogada financeira que pode ser para uma celebridade qualquer se envolver com uma causa humanitária/filosófica/ambientalista que seja. É claro, doar dinheiro a ONGs e instituições afins permite deduções de imposto de renda substanciais, e para quem tem o salário na faixa de alguns milhões de dólares, isso pode fazer uma diferença significativa. Tira um pouco do glamour da ajuda pensar assim, mas acho que se eu fosse uma celebridade algum dia (e ganhasse todo esse dinheiro, é claro), pensaria da mesma forma: melhor enviar o dinheiro direto para uma obra social interessante do que esperar pelo governo para, após muita burocracia e gasto de papel, atingi-la com o dinheiro dos meus impostos. (Descontando no Brasil ainda o risco elevado de corrupção e de que seu dinheiro vá, ao final de tudo, parar numa conta de um político loser qualquer nas Ilhas Cayman.)

Também entendo perfeitamente a grande jogada de marketing que borbulha na cabeça dos assessores de relações públicas (PR) e agenciadores das celebridades (ou na cabeça de muitas celebridades mesmo): ligar seu nome a uma causa “boa” é garantia de popularidade, boa imagem e, no final das contas, bons lucros. Quem sabe até bons contatos para uma próxima empreitada artística. Faz bem à carreira pessoal ser engajado em algo – melhor ainda se você acabou de pagar um mico bem grande nos tablóides, aí a causa “boa” se torna um diluidor certeiro de fofocas. Paris Hilton que o diga.

Mas, descartando esses 2 aspectos, eu gostaria de comentar um pouco o papel das celebridades – mais precisamente as engajadas no âmbito ambiental. Como Leonardo DiCaprio (cujo eco-site interessantemente não exibe fotos dele, para não desviar o foco da causa ambiental que ele advoca), Pierce Brosnan, Gisele Bündchen (que “copiou” nosso lema do Faça! hehehe!), Al Gore, Daryl Hannah, Cameron Diaz, Edward Norton, Brad Pitt (cujo projeto arquitetônico para o 9th Ward de New Orleans é 100% sustentável), Jack Johnson, Angelina Jolie (que junto com Brad Pitt reportaram ao fisco americano doações de 8 milhões de dólares só no ano de 2006). São apenas alguns exemplos, mas que merecem reflexão, em minha opinião.

Muitos condenam o uso da causa ambiental meramente como estratégia de PR. Para boa parte das celebridades, não passa disso mesmo – e acho que é fácil detectar quando o é (embora eu sempre pense que é melhor ajudar que fazer nada). Entretanto, há aqueles indivíduos que são verdadeiramente interessados na causa ambiental, ou porque os pais os educaram assim (caso de Gwyneth Paltrow) ou porque aprenderam com o tempo o grave risco que o planeta corre (caso de Leonardo DiCaprio, que sempre cita em entrevistas que Al Gore “abriu seus olhos”) ou porque simplesmente se apaixonaram pela causa (caso de Pierce Brosnan, que defendia a ecologia e depois de conhecer a atual esposa, uma jornalista ambiental, teve seu interesse aumentado mais ainda – literalmente “caiu de amores” pelo mar). Para essas ecocelebridades, mais que marketing próprio, é uma questão de consciência mesmo.

O movimento ambiental, no entanto, parece ainda ver com um certo preconceito a participação das ecocelebridades em suas campanhas. Greenpeace, Conservation International e WWF, por exemplo, aceitam doações com agrado, mas parecem não gostar de ter ecocelebridades estampadas em seu website – é um fato observável nessas URLs. (O WildAid tem uma página do site dedicada às celebridades que o apóiam, e parece ser nesse âmbito uma exceção entre as grandes ONGs ambientais.) Faz sentido as ONGs pensarem assim: um deslize “ecológico” de uma ecocelebridade pode ter sérias consequências de credibilidade para uma campanha perante a opinião pública. É mais fácil não arriscar.

Entretanto, acho que esse risco poderia ser melhor administrado. Porque a figura da ecocelebridade é muito forte para a maioria da população – que dirá seus fãs. É um desperdício de luta não usar a imagem de um famoso por medo de arriscar. A probabilidade de que algo dê errado existe, mas o número de pessoas que são “educadas” sobre o ambiente (ou que pelo menos despertam para a existência daquele problema) ao ouvir uma ecocelebridade em uma entrevista na TV são tão maiores, que podem tornar a campanha muito mais eficiente no final das contas. A ecocelebridade tem a oportunidade de educar milhões em uma tacada só, apenas pelo poder da imagem que tem sobre seus admiradores.

E a galera do Faça percebeu isso na prática, dia desses. A Xará postou em fevereiro de 2007 um post no Faça a sua parte falando do projeto “Amazônia para sempre”. O post, na época, teve meia dúzia de comentários e ficou nisso. Bastou semana retrasada a Christiane Torloni citar o projeto no programa do Faustão que em menos de 24h o post passou para inacreditáveis 183 comentários – and counting. Uma atriz. Uma única pessoa (!!) no rol das “celebridades” chamou a atenção de um monte de outras, e resvalou googlelateralmente num post do Faça. Imagina a página principal do projeto quanto apoio não teve… Uma bela oportunidade de mobilização amplificada que a Christiane Torloni fomentou.

Mas para que esse efeito amplificador aconteça, é necessário um outro fator importante na equação: sinceridade. A ecocelebridade precisa ser sincera com a escolha de uma causa ambiental, vestir a camisa em seu dia-a-dia, e principalmente ser uma dessas pessoas que vivem ecologicamente – e por estar no spotlight de câmeras e paparazzis, isso pode se tornar um agente complicador difícil de controlar. Mas não impossível, como muitas ecocelebridades já demonstram. Porque só assim a defesa de uma causa vai estar efetivamente ligada ao seu nome, e com isso toda a causa se amplifica. Exemplo? Hoje não se fala em refugiados no mundo sem pensar em Angelina Jolie. Porque ela se mobilizou ativamente em prol da causa, adotando 3 crianças derivadas do problema, ou seja, ela conhece de perto a realidade da causa. Assim como Leonardo DiCaprio tenta incorporar em sua vida o ambientalismo – recicla muito em sua mansão e sua última empreitada é um ecoresort 100% sustentável numa ilha e com 0% de produção de lixo (tudo é reciclável). A ligação da imagem de uma ecocelebridade com a sua causa de forma sincera é pré-requisito básico para o sucesso da divulgação da causa ambiental.

E tendo essa relação sincera reforçada, o movimento ambientalista ganharia muito com o apoio das ecocelebridades. Ganharia ressonância, provavelmente mais apoio e verba, e poderia expandir o campo de ação. Não é a solução final pros problemas do mundo, mas seria uma forma a mais de contribuir. Afinal, melhor fazer algo que fazer nada pelo nosso planetinha azul.

Tudo de bom sempre.

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– Publicado também no Faça a sua Parte.

– Para relaxar, uma brincadeira: Que ecocelebridade você é?

  • ethel scliar

    Concordo com você, as vezes, os meios compensam os fins1 Se é uma celebridade, por que não tirar proveito disto para melhor o mundo? Um pontinha no oceano, para todos remarem juntos! Boa semana, Ethel
    PS: As fotos dos corais estao lindas!

  • Roberta

    Eu entendo q o Greenpeace n queria celebridades estampadas no seu site.
    Tá q é legal q as pessoas, sejam famosas ou n, defendam causas da natureza, mas tbm é fato q mts “celebridades” só as defendem pq um poderoso chefão mandou fazer. Ou alguém acha q Paris Hilton tem alguma coisa na cabeça? rs Opinião à parte: odeio Paris Hilton.
    ¬¬
    Eu me preocupo com a natureza, mas n tenho mto o q fazer. N tenho milhões p doar p ONG´s…

  • Ethel, é bem por aí q eu penso: uma pontinha de turbulência no oceano, que pode gerar uma onda. 🙂
    Roberta, todos temos o q e como fazer… basta se dispor a tal. Já tem gente mostrando alguns passos eficientes pela rede. 😉
    Monik, ótimo adendo! Mais 2 nomes de peso pra listinha…
    Beijos às 3.

  • Monik

    Só pra complementar (aumentar) a sua lista. O Harrison Ford faz parte da CI, tanto como membro do comitê executivo, quanto participando de campanhas (http://www.conservation.org/Pages/harrison_ford_may_2008.aspx). Outra que apóia o CI é a Sigourney Weaver, se não me engano desde que ela fez *Na montanha dos gorilas*
    Beijos.

  • Lucia Freitas

    Xará querida do meu coração. Tá certa, certíssima. Será q a gente consegue cooptar mais uns globais??? hehehehe
    bj

  • Xará, a gente precisa tentar!
    Já pensou o Rodrigo Santoro apoiando o Faça? 😉