Vivemos num mundo que vem se aquecendo. Embora haja no passado recente momentos de esfriamento recente detectados pelos investigadores do clima, eles não passam de “ruído de fundo” (background noise) nos gráficos de aquecimento, cuja tendência geral é de subida. É essa realidade que devemos encarar daqui pra frente, seja com 0.5˚, 1˚, 2˚ ou 5˚C de diferença. O mundo está em aquecimento.

Mas quais são os impactos dessa realidade na nossa vida?

O aumento das tragédias com ciclones, furacões e afins – como em Burma e New Orleans – é talvez o mais controverso dos impactos possíveis. Se não se pode dizer com 100% de certeza que esses furacões foram causados exclusivamente pelo aquecimento global, há indícios fortes na comunidade científica de que num mundo aquecido, a força das tempestades formadas no mar e seus ventos se tornará imprevisível e potencialmente mais destruidora. Ou seja, elas poderiam até não aumentarem em quantidade, mas aumentariam em “qualidade”.

Mas existem cerca de 30,000 fenômenos registrados desde 1970 no planeta em que o impacto do aquecimento global já foi observado e medido. Esses impactos, agudos ou crônicos, irão aos poucos delinear o futuro mundo em que viveremos. É com o angariamento desses dados que a gente melhora nosso poder de previsão do que vem pela frente.

Um bom exemplo é o derretimento do gelo nos pólos. No ano passado, o Ártico derreteu a níveis assustadores, nunca vistos antes na história das medições. (Você pode ver um mapa interativo excelente do NYTimes sobre esse vai-e-vem do gelo no Ártico para entender melhor.) Ao ponto de já haver expulsado moradores de algumas cidades no Alaska, com medo de “afundarem” pelo derretimento da camada permanente de gelo, o permafrost. Na Antárctica, a situação não é muito diferente. Com o derretimento, vem sendo liberado para a atmosfera também quantidades inomináveis do pesticida DDT, de décadas passadas. O derretimento já é tão previsível que o Google Earth adicionou uma camada de “derretimento” ao seu programa baseado nos números amealhados pelos cientistas.

Não só o gelo dos polos derrete. Nos Alpes, no Himalaia e nos Andes, há confirmação de que é visível (até do espaço!) e acelerado o derretimento das geleiras – e com isso mais água desce cordilheira abaixo. Portanto, a continuar nesse ritmo, teremos mais gelo derretido, e consequentemente, mais água nos mares, o que acarreta a grosso modo o aumento do nível dos oceanos.

O aumento dos mares é, aliás, outro impacto já registrado. Em média, o aumento do nível do mar desde a última glaciação há alguns milhares de anos é de 1.8mm/ano. Desde 1992, o IPCC registrou um aumento médio de 2.8mm/ano – ou seja, existe um fator a mais elevando os mares. Há ilhas na Índia que já foram evacuadas por causa da elevação do mar, e outras áreas, como ilhas do Pacífico e na costa do sudeste asiático, vêm vivenciando o problema diariamente, através de perda dessa área costeira e da inundação de locais antes “em terra”. No Brasil, o aumento do nível do mar já foi registrado, mas aparentemente pouco aconteceu em termos de ameaça – pela falta de dados mais robustos, diga-se de passagem.

Os impactos que vemos, registramos e estudamos são para as temperaturas atuais de aquecimento global já medidas – ou seja, uma média de aumento de 0.25˚C por década. Entretanto, os cientistas começam a se debruçar em busca de previsões/soluções para um mundo com diferentes graus de aquecimento em poucas décadas – uma realidade que parece não estar distante se mantivermos o atual nível absurdamente alto de emissão de CO2 na atmosfera. Com 1˚, 2˚, 3˚ e até 6˚C a mais, o que acontecerão com ecossistemas, populações, cidades?

O artigo do link acima é uma resenha do livro do Mark Lynas “Six degrees: Our future on a hotter planet”. A situação que Lynas traça grau a grau por ano de aquecimento é:

1 grau: enchente das áreas costeiras baixas; água doce perdida em 1/3 das áreas; polos derretidos.

2 graus: europeus morrerão em ondas de calor absurdas; mais incêndios selvagens; 1/3 da biodiversidade ameaçada de extinção; as plantas começarão a emitir CO2 ao invés de absorver, devido ao stress.

3 graus: morte da Amazônia como floresta; fome na África aumenta; super-tufões e super-furacões mais comuns; CO2 será liberado do solo derretido e aumentará a velocidade do aquecimento global.

4 graus: Permafrost todo derretido torna aquecimento global impossível de ser administrado; enchentes severas que tornam inabitáveis áreas costeiras; região mediterrianea abandonada.

5 graus: polos sem gelo totalmente; metano é liberado dos oceanos e acelera ainda mais o aquecimento; humanos migram atrás de comida em vão.

6 graus: só os fungos sobrevivem. Vida humana se torna quase impraticável. (Será que a gente se adapta?)

(O detalhe é que o autor do artigo adverte para o fato de que 5 graus é o tipping point, ou seja, o ponto teórico de não-retorno do sistema. É quando não vai dar mais para reverter situação alguma.)

Os cenários dadas por esse livro em particular são catastróficos – embora eu não os considere muito longe da realidade plausível. Mas em geral, os cenários variam de acordo com a temperatura e com o foco de pesquisa de cada um que se propõe a falar sobre o tema. Esses cenários costumam ir desde amenidades a verdadeiras catástrofes e, é claro, assumem que nada faremos para evitar o problema. Cabe ressaltar aqui que diferentes problemas têm também diferentes pontos irreversíveis. Ou seja, se para os mares um aumento de 1˚C já é suficiente para um estrago no ecossistema marinho, precisam-se 3˚C de aumento para a Amazônia se tornar uma área desértica. Se lembrarmos que a chance de evitar um aumento de 1˚C na atmosfera é ZERO, ou seja, inevitavelmente isso vai acontecer nas próximas décadas, trabalhar nesse tipo de previsão de como será o mundo aquecido é simplesmente fundamental. Não só para pesquisadores, mas também para governos, instituições, populações – enfim, para todos que habitam este planetinha azul.

É preciso acumular mais dados para dar mais robustez às decisões a serem feitas. Mas é também preciso pensar em estratégias eficientes agora, mesmo sem esses dados, que evitem a piora das condições de vida das 6 bilhões de pessoas e das incontáveis espécies animais e vegetais que sofrerão com o aquecimento global. Dada a desigualdade econômica que vivemos, é preciso pensar em estratégias que desloquem recursos de áreas mais ricas para as mais pobres, que sem dúvida sofrerão mais. Num mundo globalizado, apesar da estratificação, os impactos do aquecimento também são globalizados e a gente precisa se unir para encararmos juntos, de frente, sem fuga por negação, cada um fazendo a sua parte, esse novo estilo de vida quente.

Como bem disse o pesquisador Donald Brown, da Pennsylvania University, citado num post do Dot Earth:

“A natureza do risco associado às mudanças climáticas é enorme, e usar a incerteza estatística como uma desculpa para nada fazer é eticamente intolerável”.

Para mim, ele disse tudo. E para você? 🙂

Tudo de bom sempre.

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*Três links que achei interessante nas minhas viagens internéticas sobre aquecimento global:

– Lá no Vagablogging achei a lista dos 20 pontos turísticos do planeta mais ameaçados pelo aquecimento global.

– Existem inúmeros sites sobre aquecimento global, mas eu indico aqui o portal da Nature, que é de uma riqueza de temas e abordagens espetacular.

– Um post que conta como os “denialists” (aqueles que negam o aquecimento global) podem vir a aceitar a realidade. É uma leitura interessante.

– Esse texto foi publicado no Faça e faz parte dos “Debates Ambientais do Faça a sua parte” que acontecerão até dia 14 de junho em celebração ao dia mundial do Meio Ambiente, 05 de junho. Dia em que haverá aliás uma blogagem coletiva (para quem quiser, o selo já está no blog do Afonso). Convoco aqui todos que quiserem participar dessa discussão/comemoração.

  • Clarissa

    Oi, Lúcia
    Um outro dado: o IPCC estimou um aumento do nível do mar em 17 centímetros durante o século 20. E projeções de cientístas mostram deve aumentar em mais 18 a 55 cm até 2100.
    Abraços!