Na semana passada, eu recebi um email simpaticíssimo da Sabrina Xavier, com uma notícia sobre as descobertas coralinas no atol de Bikini, nas Ilhas Marshall. A reportagem enviada pela Sabrina era a tradução feita pelo jornal Público, de Portugal, de uma nota da agência internacional de notícias Reuters. E contava uma história que eu meio que já comentei por aqui, com o tempero extra de que agora está “validado cientificamente” – foi publicado num jornal peer-reviewed.

Mapa da República das Ilhas Marshall (RMI) com seus atóis. No canto esquerdo inferior, dá pra ter uma idéia de onde fica esse país no globo: no meio do Pacífico. Mapa retirado do artigo original.

O atol de Bikini esteve fechado por 50 anos à presença humana por causa dos testes atômicos realizados pelos americanos ali na década de 50. Foram feitos 23 testes nucleares em 7 áreas diferentes do atol, com um total de 76 megatons detonados. A maior cratera feita foi a de Bravo, que abrigou a última explosão em 1958. A radiação espantou os humanos do local por razões óbvias. Só que ao retirar os humanos do atol, a consequência mais imediata foi deixar o ecossistema marinho em paz. E depois de 50 anos, o resultado da ausência humana no atol é uma explosão – não atômica, mas de biodiversidade. A Zoe, a Silvia e a Maria, pesquisadoras responsáveis pelo levantamento das espécies em Bikini que a reportagem comenta, realizaram levantamentos de espécies de coral em diferentes pontos do atol e perceberam a incrível resiliência do ecossistema (resiliência é a capacidade de um animal ou grupo ou ecossistema em sofrer danos ou perturbações e absorvê-los ou adaptar-se a essas perturbações). Ou seja, depois de uma bomba atômica que destruiu completamente os recifes do atol, os corais voltaram a se estabelecer naquele ambiente. Isso é que é resiliência… (Parênteses: Relatos contam que “choveu” poeira branca sobre Rongelap logo após a explosão nuclear, e essa poeira branca eram os restos mortais dos recifes de corais pulverizados.)

Mapa esquemático do atol de Bikini mostrando em verde os locais dos testes nucleares e sua força em megatons. Em laranja, vemos as ilhas do atol, e em azul o contorno da área de recifes que é característica da formação de atol. Mapa retirado do artigo original.

Zoe contabilizou em seu estudo 183 espécies de coral escleractíneo (“duros”) em Bikini – é mais do que toda a costa brasileira em diversidade de espécies de coral. Provavelmente, para a recolonização da área, as espécies vieram por correntes marinhas dos atóis vizinhos (principalmente de Rongelap) e/ou de outras regiões do Pacífico. Das espécies existentes antes da bomba, as pesquisadoras acreditam que 28 espécies desapareceram totalmente da região – um número que eu considero baixo para o Pacífico. Ainda assim, são perdas. Dessas espécies perdidas, a maioria vivia dentro do lago do atol e não resistiram absolutamente à pulverização. Entretanto, 11 espécies foram contadas pela primeira vez na região – uma delas pela primeira vez no Pacífico, a Pectinia africanus. Esses resultados mostram que não só o ambiente se recuperou, mas conseguiu formar um recife funcional e receber novas espécies sem maiores desequilíbrios. O ecossistema está saudável. E Bikini se tornou o mais novo “laboratório vivo” para estudos de grandes impactos em vastas áreas de ecossistema marinho.

Não é qualquer turbulência que consegue fazer desaparecer essa diversidade…

A resiliência mostrada pelos corais do atol de Bikini, depois de tamanha devastação, são uma esperança de que podemos quem sabe reverter o quadro atual de destruição atual dos recifes de corais. Basta tirar o componente humano da equação. 🙂

Tudo de coral sempre.

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– As 3 pesquisadoras que citei acima são também as responsáveis logísticas pelas expedições do NRAS de levantamento de fauna das Ilhas Marshall em que meu marido participa.

– Para mais fotos dos atóis das Ilhas Marshall e sua fauna marinha, veja as galerias da ArteSub: Namu, Ailuk e Rongelap.

– E uma dúvida besta de português para a qual não consigo achar resposta em gramática alguma: o substantivo designativo “de atol” (como em “formação de atol”) é atolífero, atolino ou atólico? Se alguém souber a resposta, por favor me ilumine! 🙂

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Lista completa dos posts da Semana do Recife de Corais no blog da Malla:

Semana de Recifes de Corais 2008

Os corais de Bikini

Procurando (e encontrando) Nemo

Mar de cores

O trabalho no recife

Sherman’s Lagoon

  • Leila

    Que bom que a vida voltou ao lugar. Mas fico imaginando se ainda sofrem contaminacao radiotiva.

  • Leila, no mar a contaminação radioativa ficou muito mais “diluída”, por causa da movimentação da água com as correntes. Em solo, ainda não se pode ingerir nenhum côco que tenha crescido ali, porque no solo há muitos isótopos radioativos que não se dissiparam tão facilmente como no mar.

  • João Carlos

    Eu me pergunto o quanto dessa recuperação não terá sido devida às dezenas de cascos soçobrados dos navios de guerra usados como alvo na primeira experiência…
    Ah!… Sim… Os léxicos não registram nenhum adjetivo derivado de “atol”, mas registram um quase-sinônimo: “abrolho(s)” que tem um adjetivo derivado: “abrolhal”. Serve?… 😉