Os recifes de corais são ambientes bastante coloridos. Embora quando a gente mergulhe, olhe para o recife e ache que tudo é meio “amarronzado”, na realidade aquele ambiente borbulha de cores.

Por causa da água e sua propriedade óptica polarizadora, quanto mais fundo vamos, menos cores vemos. A poucos metros da superfície, todos os tons vermelhos são perdidos, e a cada metro que descemos, mais comprimentos de onda vão desaparecendo, sobrando a uns 40m apenas os tons de azul e ciano, e o preto profundo abaixo dos 100m (todos os comprimentos de onda foram ali absorvidos e nenhum refletido). Por isso, a sensação de quem mergulha é de ver tudo azulado/amarronzado. Minha dica para todos: mergulhem com uma lanterna, mesmo se for de dia.

Por quê uma lanterna? Com o foco de luz da lanterna próximo ao recife, você fornecerá artificialmente os demais comprimentos de onda que a água retira do ambiente, e perceberá então a real cor dos corais, esponjas e demais habitantes do mundo sub recifal. A lanterna funciona como um “pincel” que permite a você “pintar” o recife de cores – na realidade, realçar sua cor “verdadeira” (verdadeira para os padrões humanos de visão, entenda-se. Porque para o peixe nada está “errado”).

Dedo sem flashDedo com flash

Um experimento acidental: uma vez André se cortou mergulhando e resolveu registrar o pequeno sangramento sem e com flash. O resultado está aí acima, e dá pra perceber claramente a diferença que um bom foco de luz embaixo d’água faz para a percepção das cores reais – principalmente os tons de vermelho.

Só com um bom foco de luz sobre o recife de coral, você percebe a diversidade de cores ali existentes. E a pergunta que fica é: para quê tantas cores nos corais se a maior parte da fauna não enxerga? A maior parte dos animais num recife de coral realmente não enxergam cores, mas percebem nuances (não necessariamente coloridas) e intensidades, emitidas geralmente por objetos de cores quentes: vermelhos, amarelos ou alaranjados – e que para eles ficam em tons de cinza ou azul-pálido. Então eles percebem a presença do coral pela intensidade da cor, e a cor que têm é usada então para se mimetizar ou dificultar que o predador os encontre. Para nós, que enxergamos as cores, parece inacreditável que um peixe completamente amarelo esteja se “escondendo” na frente de um coral vermelho. Mas quando só a intensidade importa para não ser devorado, o animal efetivamente está escondido – aos olhos do predador. O recife de coral é tão diverso em padrões de cor e estética que animais listrados, de bolinha ou com estampas exóticas facilmente se tornam “fundo” perante animais que não enxergam a cor.

Mar de cores

Na explosão de cores que é um recife de coral, será que o predador encontra facilmente o cavalo-marinho que está escondido na foto acima?

Na realidade, esse é um campo fascinante de estudos porque não se sabe muito ainda sobre a função das cores e a real percepção de boa parte dos animais ao redor das cores que os circundam. Há muita especulação nesse campo, e acredito que em breve muitas propostas interessantes surgirão para explicar certos comportamentos. É muito provável que as cores, por exemplo, exerçam algum tipo de seleção – caso contrário, não haveria animais miméticos tão similares ao ambiente em que vivem, como o cavalo-marinho que vive num coral mole específico e é facilmente confundido com um galho do mesmo; nem o polvo, que a cada movimento transforma sua coloração para se confundir com o fundo em que está. Recentemente, um estudo mostrou que um tipo de donzelinha consegue distinguir entre azul e amarelo, e essa é a primeira evidência comportamental de que os peixes recifais podem distinguir entre cores; outro estudo anterior já havia mostrado que alguns peixes conseguem enxergar o comprimento ultra-violeta, o que possivelmente trouxe uma nova perspectiva interessantíssima para a aquarela do recife de coral.

O camarão-de-mantis (à esquerda) é o animal com a melhor visão do recife de coral. Abaixo, um filhote de peixe-anjo, que tem padrões exóticos que o ajudam a se misturar com o fundo de coral para os que não enxergam cores muito bem.

Dos habitantes recifais, o que apresenta a visão mais aguçada e mais sofisiticada é sem dúvida o camarão-de-mantis. Além de possuir 16 tipos celulares diferentes para distinguir comprimentos de onda (os humanos têm 4: 3 tipos de cones e 1 tipo de bastonete), ainda possui células que captam variações de padrões de polarização e percepção espacial. Têm também visão de profundidade com apenas um dos olhos – propriedade que um olho humano sozinho não possui.

É fascinante perceber a imensa variedade de cores e padrões que vemos nos recifes de corais. Mais emocionante ainda é descobrir as adaptações que os animais desenvolveram para viver naquele ambiente esfuziante. E mais diversão ainda é mergulhar e poder ver de perto, com seus simples olhos humanos, o mar de cores que o ecossistema descortina. Sem esquecer a lanterna.

Tudo de cor(al) sempre.

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– Esse post faz parte da Semana dos recifes de Corais do Deep Sea News. Até agora, eu postei uma geralzona sobre corais, um pouco do impacto dos testes nucleares no atol de Bikini e a história do habitante mais famoso dos recifes.

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Lista completa dos posts da Semana do Recife de Corais no blog da Malla:

Semana de Recifes de Corais 2008

Os corais de Bikini

Procurando (e encontrando) Nemo

Mar de cores

O trabalho no recife

Sherman’s Lagoon

  • Jefferson Posz

    Gostei, achei muito interessante essa matéria… gostei mesmo….
    Parabéns….

  • André Ribeiro

    Muito fixe. Eu pratico mergulho de apneia e não sabia disto. Obrigado

  • Jefferson e André Ribeiro, obrigada vocês, pelos elogios. 🙂
    E André, demorei (os neurônios gastos…), mas entendi o q era fixe! 😀

  • Demosthenes Neto

    Muito interessante essa matéria sobre a diversidade de cores existentes nos corais. Me ajudou a adquirir novos conhecimentos sobre os corais.

  • MARILU

    AMEI, UM DIA QUEM SABE TEREI CORAGEM DE FAZER UM CURSO DE MERGULHO PARA CONHECER ESTAS MARAVILHAS DO FUNDO DO MAR.

  • bruna

    amei