Sábado fui assistir à palestra “Biodiversidade e a 6a extinção”, proferida pelo professor Niles Eldredge, curador do Museu de História Natural de Nova York. A palestra foi gratuita, promovida como parte da exposição “Revolução Genômica”, que acabou de estrear no espaço do antigo Prodesp, no Parque Ibirapuera em São Paulo. Eldredge foi também o responsável por trazer a exposição “Darwin” ao Brasil (que visitei ano passado), e é conhecido na ciência por ser o “pai”, junto com Stephen Jay Gould, da teoria do equilíbrio puntuado na macroevolução dos organismos vivos. Uma mente brilhante que nos presenteou com uma palestra excelente. Tentarei fazer um resumão do que foi exposto por ele e que me chamou a atenção.

Eldredge começou colocando 4 perguntas gerais:

1) O que é biodiversidade?

2) Por que a biodiversidade é importante?

3) Por que está desaparecendo tão rápido?

4) O que nós podemos fazer para evitar tal desaparecimento?

Perguntas simples, com respostas não tão simples assim. Ele resolveu começar a palestra com tranquilidade e deu várias definições. Nas palavras de Eldredge:

“Biodiversidade é o conjunto de todas as espécies vivas de todos os ecossistemas do mundo.”

“Espécie é um grupo que compartilha o mesmo genoma.”

“Ecossistema é um grupo de espécies que estão interconectadas por um fluxo de matéria e energia no ambiente.”

Apesar de óbvios, esses conceitos são discutidos em biologia há tempos, principalmente o conceito de espécie. Foi legal vê-lo escolhendo uma definição logo de início para a platéia e minimizando a possibilidade de discussões inúteis mais pra frente.

A seguir, Eldredge falou sobre a importância da biodiversidade, e apareceu um item na lista que me fez dar um sorriso. Além de ser importante para o uso humano e como um “serviço ao ecossistema”, Eldredge chamou a atenção para a importância estética da biodiversidade. Chegou a citar Edward Wilson, que considera que “está em nossos genes o amor pela natureza”. Eldredge não se considera tão “radical” nesse sentido como Wilson, mas deixou claro que há um senso de beleza necessária por trás da importância da conservação dos ecossistemas: a existência deles indiretamente contribui para que nos tornemos mais criativos. Sem dúvida, um adendo a ser refletido.

Eis então que ele inicia seu comentário sobre o que chama de “a 6a extinção”. Houve 5 grandes extinções em massa na história da vida, que remonta a 3.5 bilhões de anos. A última delas ocorreu no Cretáceo, quando os dinossauros desapareceram e permitiram que um grupo até então muito arredio se expandisse, os mamíferos. Eu não gosto muito desses exercícios de passadologia, mas confesso que fico imaginando se os dinossauros ainda estivessem reinando na Terra. Será que a espécie humana teria chegado um dia a triunfar – quiçá existir? Provavelmente não.

E Eldredge acha que nós agora fazemos as vezes de dinossauros: os grandes animais que “amedrontam” o resto do planeta. Usando dessa vez não a força e o tamanho, mas a vantagem que o cérebro desenvolvido nos permite: pensar. Com um quê a mais: pensando, inventamos e modificamos o ambiente. Ao inventarmos a agricultura, por exemplo, nós tentamos nos colocar fora do ecossistema local – modificamos ao nosso belprazer para as nossas vontades e necessidades. Somos animais que decidem nossa vida por nós mesmos (“we take life in our own hands“, foram as palavras usadas por Eldredge), fato inédito na história da vida natural.

Mas o fato de nossa pressão seletiva ter sido alterada pela nossa razão, junto ao fato de que produzimos a comida que quisermos satisfazendo nossas necessidades básicas animais, geraram o que provavelmente não ocorreria se não pensássemos: uma superpopulação humana. E essa é a força-motriz do que Eldredge chama de 6a extinção, já em andamento.

Porque precisamos tirar da cabeça das pessoas em geral que a extinção dos dinossauros foi um evento rápido, de poucos dias, semanas ou anos. Não, foi um processo de alguns bons milhares de anos, desencadeado por um evento rápido, a queda dos asteróides durante o Cretáceo. Mas a extinção em si de todas as espécies não foi rápida.

Eldredge acredita bravamente que a superpopulação humana, que destrói habitats, polui, introduz espécies exóticas e retira da natureza recursos em demasia, é o equivalente ao asteróide do Cretáceo, e levará a uma extinção em massa de várias espécies. Cita um livro de Joel Cohen, que afirma que se equiparássemos o consumo, gasto e geração de dejetos de classe média para todos os humanos, a Terra só suportaria 2 bilhões de pessoas com os recursos que tem a oferecer. Já somos mais de 6 bilhões. Ou seja, o planeta há tempos passou seu limite saudável. É claro, tudo depende de como cada um conceitua seu “viver bem” e esse é também um argumento culturalmente perigoso – pode trazer o descaso com aqueles que hoje não tem acesso a quase nada com uma justificativa “ecológica”. Não compartilho desse radicalismo, mas a questão levantada por Eldredge é válida e preocupante. Nas palavras dele, “estamos brincando de roleta russa com nosso futuro”. Dura e triste realidade, infelizmente.

Ao final da palestra, Eldredge tentou responder à última pergunta, o que podemos fazer para mudar esse cenário de extinção, ou pelo menos evitá-lo. Ressaltou as atitudes em basicamente 4 pontos:

1) Conservação

2) Estabilização da população mundial

3) Sustentabilidade

4) Tratar seu vizinho como se sua vida dependesse dele

O último item foi o que achei mais complicado, por incrível que pareça, mas também o mais utopicamente belo. Afinal, somos uma sociedade individualista por essência. Estabilizar a população leva a diminuição de mercado consumidor e isso vai contra as regras básicas de qualquer economia que se preze na atualidade. Eldredge é esperançoso, e acredita que tudo isso é possível através da educação das pessoas, pois se elas souberem economizar e realmente souberem da importância de tratar bem seu vizinho (qualquer espécie seja ele), evitaríamos a maior parte dos problemas que hoje geramos, principalmente o da extinção da biodiversidade. Nas palavras de Eldredge:

“Why do we care about global warming? It’s not because we cause, but because we are still part of the ecosystem.”

Muito localizada essa perspectiva, e por isso tão bela.

Pense globalmente, aja localmente – palavras que adquirem um novo sentido para mim depois dessa palestra de Niles Eldredge sobre biodiversidade.

Biodiversidade

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A parte divertida da palestra foi encontrar alguns membros do Roda de Ciência no Ibirapuera. Abaixo, a foto do palestrante Niles Eldredge com João Alexandrino, eu, Sílvia e Maria Guimarães.

Niles Eldredge com membros da Roda de Ciência: João Alexandrino, Lucia Malla, Sílvia e Maria Guimarães

Além do passeio delicioso numa tarde linda de sábado pelo parque Ibirapuera, que é um respiro de verde na selva cinza de São Paulo. Ciência, conservação e turismo ao mesmo tempo: quer melhor que isso? 😀

Auditório do Ibirapuera

Tudo de bom sempre.

  • Carlos Hotta

    Pôxa, não deu para ir na palestra do Elderedge… pelo menos vc colocou um relatório completo do que rolou nela!

  • João Carlos

    O bom e velho Malthus estava certo… 🙁

  • Guilherme

    Lucia,
    Sou estudante de ciencias biologicas, gostaria de saber se possivel, em que site entro ou como posso estar por dentro de palestras como esta que voce esteve presente.Gostaria de estar por dentro de palestras como esta, a exposiçao vi hoje na tv, pode ter certeza que estarei dentro. Mas se possivel, aguardo resposta.
    Obrigado… achei o maximo seu log!!!

  • Guilherme

    Gostaria de saber como fazer para estar por dentro de palestras como esta. Aonde tem esses informativos?

  • Carlos, a intenção é sempre informar. 🙂
    João, e não é q de certa forma estava? 🙁
    Guilherme, eu soube dessa palestra por email de última hora. A palestra foi gratuita, portanto qqer um poderia se inscrever e ir. Mas no site da exposição “Revolução Genômica”, segundo a Maria, estará o calendário de todas elas. Será uma por sábado até julho, excetuando feriados. Vale a pena ficar alerta. 🙂
    Beijos aos 3.

  • Maria Augusta

    Obrigqdq por nos trazer este resumo da palestra, Lucia. É verdade que por falar na “sexta extinção”, é a própria espécie dominante que a está causando, e conscientemente, o que é pior. E desta vez, acho que não vai sobrar muito para o planeta se regenerar…
    Um beijo.

  • maria

    a programação cultural ligada à revolução genômica está aqui:
    http://revistapesquisa.fapesp.br/?art=4561bd=2pg=1lg=
    vale conferir de vez em quando as atualizações.

  • Neide Guimarães Ferraz Penteado

    Maria Augusta.Fiquei ansiosa e condoída ao ver a situação grave em que nos encontramos

  • Josiane Alves

    Olá tudo bem?
    Sei que estou atrasada, mas queria saber dessa palestra que vc assistiu uma coisa… foi em português ou em inglês com tradutor. Fiquei muito interessada no assunto e quero também assistir uma paelstra dele num evento da minha faculdade.
    Se puder me responder, sou grata.

  • Josiane, foi em inglês. O evento tinha tradução simultânea para quem quisesse.

  • Marco Antônio

    parabenizo a iniacitiva de ter compartilhado este resumo da palestra…
    Sou formando em geografia e ando resgatando alguns assuntos a nível global. A sociedade Moderna atual(Modo de produção capitalista) realmente acha que pode impor uma dinâmica própria como se a simples engenharia pudesse triunfar de forma hegemônica sobre a natureza e impor sua ritmo…como se estivessemos sempre prestes a ir a um estágio superior e eterno de progresso. Ledo ilusão civilizatória. Acredito que esse sistema humano dominante entrará em colapso e muitos por incapacidade pereceram (6ª extinção)… e que os pobres do mundo sobreviverão… em especial aqueles grupos que cultivarem uma praxis solidaria em sua cultura.

  • Valeu, Marco Antônio!