Hoje é o dia mundial da Água, uma data criada durante a Conferência ECO-92, no Rio de Janeiro, e que objetivava ser um dia para se levantar questões sobre o uso, origem e problemas da água nossa de cada dia. Nesse ano, o tema é “Sanitização”, e imagino que alguns blogs comentarão nesse viés específico (sugestão: leiam os números que o Dot Earth apresenta sobre o tema). Entretanto, eu prefiro comentar sobre algo que me atrai mais: o recém-descoberto problema da água potável contaminada por remédios que todos nós tomamos no decorrer da nossa vida.

Foi no congresso da ASMS em Seattle – 2006 que assisti pela primeira vez a uma palestra científica sobre análise química da água – nesse caso, de um professor italiano que estava medindo nas cidades européias o conteúdo do subproduto de cocaína, e inferindo o número de usuários de cada localidade baseado em seus resultados. Nesse mesmo congresso, havia uma seção enorme de posters inteira dedicada ao desenvolvimento de tecnologias para a detecção de substâncias contaminantes na água potável e/ou de rios, lagos e afins, como hormônios femininos derivados de pílulas anticoncepcionais (os estrogen-like), esteróides anabolizantes, antibióticos, anti-depressivos, suplementos alimentares, cafeína e nicotina, pra ficar apenas em alguns.

Todo esse coquetel de fármacos – incluindo aí os que as pessoas chamam de “naturais”, que possuem muitas vezes quantidades danosas de pseudo-estrógenos vegetais e análogos de efedrinas da vida – são ingeridos na forma de pílula ou cápsula, pois as pessoas preferem engolir um pedaço de farinha que tomar uma injeção, esta sim a forma mais eficiente de fazer um remédio cair na corrente sanguínea. Pela via oral, o fármaco quase nunca é 100% absorvido pelo organismo. Ou seja, dos xis miligramas de antibiótico que existem naquele tablete, apenas uma porcentagem é efetivamente utilizada pelo seu organismo. O resto é excretado por você, e termina caindo na tubulação de água do banheiro da sua casa, indo parar finalmente em algum curso d’água.

E é aí que os problemas começam. A água de um rio, por exemplo, é tratada para consumo de forma a eliminar microorganismos (bactérias e afins), retirar sujeiras particuladas maiores, venenos e o excesso de mineralização, manter a cor e sabor da água, e reduzir a capacidade corrosiva e de turbidez. Mas o problema da “água anabolizada”, como eu costumo chamar, é muito mais complexo: os contaminantes ali estão em quantidade não tão elevada e são na sua maioria moléculas pequenas de composição orgânica (ou seja, passam a barreira de mineralização do tratamento). Por isso, a necessidade de tecnologias mais poderosas para detectá-los e retirá-los da água.

A maioria desses compostos já é possível ser detectada em qualquer amostra de água. Entretanto, ainda não possuímos meios e tecnologia eficiente para eliminá-los da água. E eles terminam então caindo no ambiente e voltam depois para a gente, na forma da água da torneira que filtramos e bebemos (e a filtragem, lembre-se, não elimina moléculas orgânicas pequenas) e que foi recentemente nos EUA relatada como contaminada para 41 milhões de pessoas. Além do nosso umbigo, há no ambiente ainda um outro problema.

Não só a gente consome água contaminada. Os peixes e outros animais que vivem no ambiente aquático também absorvem a água em que vivem e incorporam esses contaminantes orgânicos. Já se mostrou que para muitas espécies o excesso de estrógeno da água anabolizada a que eles estão expostos tem embaralhado sua fisiologia de reprodução: em espécies que apresentam dimorfismo sexual dependente das condições ambientais, por exemplo, já se relataram populações inteiras sem machos para reproduzir sexualmente. Ou pode ocorrer uma confusão generalizada durante o período reprodutivo, com o animal macho se “feminilizando” e não se reproduzindo. Isso pode ser um passo para a extinção em espécies mais sensíveis.

Mas não só os animais sofrem as consequências dos dejetos humanos inelimináveis (e indesejados) na água. Há toda uma cadeia alimentar a se pensar. Essa água suja é a que rega plantações, e que muitas plantas absorvem. Plantas que viram alimento de outros animais, como peixes e gente. Muitos dos peixes de córregos e mares também viram alimentos de peixes maiores, e assim sucessivamente pela cadeia, o que só aumenta a bioacumulação do composto orgânico poluente. Qualquer animal de topo de cadeia alimentar tem índices de metais pesados e outros fármacos elevado. Mas, no final das contas, muitos desses peixes maiores hoje são pescados e, numa cruel ironia da vida, vão parar na mesa do cidadão comum. Um verdadeiro ciclo contaminado.

Os metais pesados, embora não-orgânicos e não-responsáveis pela “anabolização” da água, servem para demonstrar o curso das substâncias tóxicas pela cadeia alimentar e como terminam acumuladas em poucas espécies – algumas que a gente consome. Já se encontrou tubarão à venda em São Paulo com índices de mercúrio 24 vezes mais alto que o indicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Mercúrio (link em pdf), aliás, também vilão do sushi de Nova Iorque – e provavelmente do mundo inteiro. E para mercúrio já temos know-how de detecção e estudos que afirmam sua toxicidade. Imaginem então todos esses compostos da água anabolizada que a gente nem sabe direito quais índices podem ser perigosos em regime crônico de ingestão – bebemos água e comemos todo dia, afinal.

Mas devemos parar de beber água? É claro que não, mesmo porque uma pessoa morre em pouco tempo sem água. O que deve ser feito ainda é alvo de muita discussão entre governos comprometidos com a saúde da população. Beber água mineral é uma saída para minorias, e inviável economicamente para os 6 bilhões que habitam o planeta. Investir em tecnologias mais eficientes para o tratamento da água é o passo mais acertado e urgente, mas virá realisticamente como solução a longo prazo. Diminuir o consumo de remédios talvez seja o desejado, mas também impraticável para muitos, principalmente em casos de doentes crônicos, que dependem daquele fármaco para sobreviver ou para viver bem.

Aceitemos o fato, pois: bebemos água com traços de moléculas indesejadas. Somos a água que bebemos, afinal. Um mundo no mesmo barco, praticamente. Algo como um novo coro: todos somos iguais perante a água anabolizada.

Tudo de água sempre.

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– Esse post faz parte da blogagem coletiva do dia mundial da Água, organizada pelo Faça a sua parte. Os demais posts estão agregados lá, e merecem ser lidos e refletidos, como mais uma amostragem do que estamos causando ao nosso planetinha azul.

  • Maria Augusta

    Lúcia, este aspecto da poluição da água eu ainda não tinha ouvido falar, é realmente assustador, pois estes poluentes não podem ser eliminados. E como você disse, somos a água que bebemos…e o pior é que cada vez que nos servimos da água nós a poluímos. É preciso mesmo uma conscientização mundial sobre o uso da água, tomara que esta nossa blogagem dê “uma mãozinha” neste sentido. Beijos e Boa Páscoa!

  • Chico

    Muito interessante Lúcia…
    É realmente impossível ver o mundo inteiro bebendo água mineral. Na verdade nem faz muito sentido pensar nisso…
    Em Fortaleza existe um grande.. enorme lixão iniciado algumas décadas atrás. Pois bem, o tal do Jangurussu já foi desativado, mas devido a sua localização “estratégica”, os resídeuos tóxicos dele continuam poluindo quase todo o lençól freático de Fortaleza. Estou certo em dizer isso?
    Aqui em casa temos poço, mas a água não é própria para beber. Por isso, somos reféns de água mineral. O triste é saber que isso não resolve o problema, pois é comum a falsificação de água mineral.
    Ótimo post..
    Bom final de semana.:)

  • Lulu on the sky®

    Parabéns pelo post Lúcia. Muito bom mostrar o qto a poluição da água é prejudicial a nossa saúde.
    Tb participei da blogagem.
    Big Beijos e Feliz Páscoa

  • Careca

    Malla, esse post foi iluminador. Nunca havia parado para pensar nisso. Obrigado.

  • Allan

    Depois de ler esse post, acho que estou tendo uma crise de abstinência.
    Será a água?
    🙂

  • Andréa N.

    Lindo post, Lucia! Quando é que as pessoas desse mundo vão entender e aceitar que estamos TODOS no mesmo barco? Tsc, tsc, tsc. Beijos agüados pra você. 🙂

  • Manu

    🙁 Triste…apesar de ter as constatações disso à todo momento, sempre doi quando se lê mais uma vez o mal que estamos fazendo ao planeta. Falando de Mercúrio, lembrei da ‘morte’ do Rio Subaé em Santo Amaro, no Reconcavo Baiano; causada por uma fábrica vizinha ao rio e que despejava nele seus resíduos. Cocaína…hormônios? Realmente, pobres daqueles que não podem nem sonhar com água mineral, quem dirá consumí-la. Aqui em casa a água é mineral, mas sabe? Com tanta coisa acontecendo, sempre que olho o garrafão me pergunto até quando isso será possível (afinal, sempre penso que a fonte da tal água pode ser contaminada de uma hora para outra…quem me garante que não?). Como disse no início…triste 🙁
    Beijos para você e para os que fazem sua parte 🙂

  • Roseane

    Legal teu post. A água é um direito humano, infelizmente existem pessoas que tem esse direito violado. Boa páscoa!

  • Maria Augusta, o maior problema dessa categoria de poluentes é exatamente que eles não são eliminados. É o que os torna “igualitários” tbm, tornando a água contaminada em praticamente todos os estratos da sociedade.
    Chico, vc lembrou de um problema q eu não gosto nem de pensar: a falsificação das águas minerais. Sei que ocorre, e não só no Brasil. Infelizmente, um efeito colateral da pobreza.
    Lulu, feliz Páscoa pra vc tbm! 🙂
    Careca, de nada, meu caro. Fico feliz que meu post tenha lhe feito pensar em mais esse aspecto. 🙂
    Allan, deve ser… 😀
    Andréa, às vezes eu tenho a sensação de que o “estarmos TODOS no mesmo barco” é o que de mais difícil há pra o ser humano entender…
    Manu, tem tbm isso, além do problema q o Chico colocou: a poluição direto na fonte. No sul de Minas, várias fontes vêm secando e/ou sendo contaminadas por indústrias e afins. Ou seja, talvez nem a água mineral seja mais tão livre de poluentes assim… 🙁
    Roseane, no caso da água anabolizada, praticamente todos têm esse direito violado, mesmo a camada mais rica da população. Isso é muito triste.
    Beijos a todos, e aproveito aqui pra desejar feliz Páscoa! 🙂

  • Cláudio Costa

    Já havia lido sobre este tema e você foi muito objetiva e consistente no post. O índice de contaminação por metabólitos de medicamentos é impressionante, basta imaginar a quantidade de pessoas que ingerem remédios e excretam resíduos ativos. Sobre a pesquisa do italiano, parece que já se detectou “pó de cocaína” na atmosfera de Roma (li isso em algum lugar!). Aos poucos e, parece, inexoravelmente, vamos alterando a composição do planeta Terra. Até quando?
    Feliz Páscoa.

  • Dr. Claudio, essa de cocaína no ar de Roma eu não conhecia. Mas a pesquisa desse professor conseguiu mostrar que o número de usuários de cocaína era muito maior que os dados que o governo e outras agências tinham, só analisando o subproduto único da metabolização da cocaína no organismo. Isso com uma substância. Imagina quando a gente adiciona todas as pílulas anticoncepcionais, analgésicos, antibióticos… é uma alteração complicadíssima do planeta, a qual não temos idéia alguma de como nos afetará a longo prazo.
    Feliz Páscoa pro senhor tbm! 🙂

  • Marília

    Puxa, nunca tinha pensado nisso! Nessa água anabolizada!
    Belo post!

  • Luciano Silva

    Pessoal, vocês já ouviram falar do PURIFIC.
    Ao meu ver é a única solução existente atualmente para eliminar de vez o terrível garrafão de água mineral.
    Um abraço a todos e estou a disposição para contatos.

  • Cláudio Pontes

    Boa tarde!
    Muito interessante seu artigo sobre água anabolizada. Estou pensando em fazer uma monografia sobre os riscos dos fármacos nas águas e gostaria de saber se você pode me indicar alguma bibliografia a respeito do assunto.
    Se não for tomar o seu tempo, pode me enviar no e-mail acima. Muito obrigado.

  • Lucas

    Olá a todos,
    Parabéns pelo artigo!
    É muito bom saber que temos mais pessoas, a cada dia, dedicadas a desenvolver temas sobre nutrição, boa forma e saúde na internet.
    A água será tema de muita discussão de agora em diante. Nem todos terão oportunidade de beber água de qualidade. Isso gerará doenças, etc.
    Certamente, informações muito úteis.
    Gostaríamos de fazer um convite para visitar nosso sítio, quando tiver um tempo:
    http://companhiadanutricao.com.br (opção PORTAL)
    Felicidades para você e seus leitores!
    Equipe Companhia da Nutrição
    Valorizando os profissionais de saúde