ATENÇÃO: Este post contém spoilers. Se você ainda não leu o livro E não quer sabê-los, aconselho parar por aqui.

Que o Bia é um lindão, isso todo mundo que o conhece já sabe. O que provavelmente apenas os que leram “Virgínia.Berlim – uma experiência” sabem é que o Bia, como todo escritor de ficção que se preze, é um voyeur da vida alheia. E o faz ao estilo mais hitchcockiano possível, conversando tranquilamente. Ele usa a arma mais subjetiva existente para convencer os demais a voyeurizarem com ele: as palavras. E assim como Hitchcock usou os cortes de sua câmera para expressar pontos-de-vista, o Bia corta suas frases, insere pontos finais onde eles não deveriam existir, põe exclamações e parênteses que te interrompem, que são lidos e sentidos, que levam a pausas narrativas, a pontos-de-vista abruptos. É impossível para mim não comparar seu livro com o filme “Janela Indiscreta”, apesar do suposto diálogo mais solto e da maior melancolia de “Virgínia”: ambos têm uma tensão no fato do narrador estar preso a seu apartamento, sem saída física para resolver os problemas que vê de sua clausura – e ambos convidam o observador a viver a mesma tensão da perda a cada segundo. Ambos assistem à vida acontecer e ao mesmo tempo vivem. Ambos terminam com mortes que celebram metaforicamente o cotidiano, essa pausa inevitável da surrealidade.

“Virgínia.Berlim” é um pedacinho da vida de um fulano – nem sabemos seu nome – que, depois de cortar o pé profundamente, se envolve com a moça do título. E assiste de forma mentalmente voyeuresca e estilizada à sua morte, dando um basta na disritmia calorenta dos dias pré-natalinos em que o romance se passa. É realmente uma experiência, uma pausa – tensa, mas ainda assim, pausa.

Há um CD com músicas complementares ao livro. Não sei exatamente as intenções do Bia com mais essa experiência sensorial e não sei se meu ouvido zappônico-hermetopascoaliano não ajuda muito, mas achei as músicas também recheadas de pausas, e mais uma vez o Bia, para mim, made his point. Tudo é pausado em “Virgínia.Berlim”, até na capa, onde há um ponto final entre os nomes “Virgínia.Berlim” e “Luiz.Biajoni”! Como a dizer logo de cara pro leitor que chega: há duas facetas dentro de todos nós, nome e sobrenome, realidade e surrealidade, e entre elas, um espasmo de silêncio necessário.

Em minha opinião, o livro é uma grande pausa melancólica, iluminada pelo nonsense casual das experiências que entram de vez em quando nas nossas vidas. E quem disse que viver tem que sempre fazer sentido? A gente às vezes precisa de pausas e o Bia revela isso ficcionalmente com suas palavras.

Ah, e se eu gostei do livro? Adorei. 🙂

Tudo de bom sempre.

**********

– Esse post, assim como o livro do Bia, é dedicado à Mônica, uma das pessoas mais fabulosas que a internet trouxe na minha pausa de vida.