We love sharks

Na Flórida por uma semana em março passado, não perdemos a oportunidade de ouro de visitar o parque estadual John Pennekamp, um santuário de recife de corais na região dos Keys. Como fomos apenas a Key Largo, foi de lá que saímos para uma série de mergulhos naquelas águas novas para mim – foi a primeira vez que mergulhei na Flórida.

A primeira constatação é que mergulho é um grande negócio na região dos Keys. Grandes lojas de equipamentos, muitas operadoras, promoções, etc. todo um marketing em cima do melhor “point”. Profissionalismo “made in USA” típico, que repercutia em todos os detalhes de todos os dive sites descritos em cada lojinha que visitávamos. Seguramente, a atmosfera inspirava cair na água já – e foi o que fizemos, é claro.

Nossos mergulhos foram conduzidos por duas operadoras. A primeira, Island Ventures, nos levou até o Spiegel Grove numa tarde de vento frio, para conhecer esse belíssimo naufrágio. Mergulho intenso, mas super-legal. Indico a operadora a todos que mergulham, são a cara da Flórida, bem basicão americanóide. A segunda operadora, a Captain Slate Atlantis Dive Center, era a nossa escolha inicial, por isso a expectativa foi crescendo com os mergulhos que ofereciam. Principalmente um deles.

Quando decidimos passar pela Flórida, ainda elaborando planos de viagem, a razão principal era exatamente o “Creature Feature”, tipo de mergulho que só o Captain Slate oferecia na região: uma vez por semana, eles saem para alimentar com peixes alguns animais marinhos de grande porte do recife (os que aparecerem no dia), em uma certa área de fundo arenoso do parque de Pennekamp, a 11 metros de profundidade. O mais incrível é que os animais estão incrivelmente condicionados, e estão (quase) sempre lá, no mesmo bat-dia e bat-local, à espera do alimento. Há controvérsias quanto à prática, que eu, como bióloga, vejo com um certo receio; mas fato é que, como experiência, é de certa forma educativo.

Tubarões abundam. Ao sentir o cheiro do peixe, vários aparecem; afinal, fartura e facilidade de alimento não acontecem todo dia. É uma excelente oportunidade para os humanos que têm medo dessa “fera dócil” se aproximarem, e perceberem o quanto o tubarão é um bicho mal compreendido pelos humanos: podem ser muito tranquilos. Têm dentes afiados, é claro, e isso deve ser informação suficiente para que qualquer pessoa de bom senso mantenha uma distância mínima, mas a maioria deles não te atacam se você não os incomodar. Respeito ao espaço alheio é fundamental. E embora seja uma situação artificial de alimentação do bicho, eles parecem não ligar para nenhum dos humanos ali, querem mesmo é fuçar no balde de peixes. Resultado: o divemaster pega os tubarões, faz com que cada mergulhador passe a mão na barriga de um deles, e ainda brinca com os mesmos – em mim, ele colocou o tubarão na cabeça, fazendo um chapéu de tubarão, nova tendência da moda fashion-eco-oceânica. As passarelas de Milão que se cuidem… É emocionante segurar um tubarão, e eu vibrava alucinadamente embaixo d’água com aquela farra toda.

Outro animal que merece destaque nesse mergulho é um mero (ou garoupa-gigante), animal criticamente ameaçado de extinção, que passeia por entre os mergulhadores enquanto o divemaster oferece peixe aos tubarões. “Bruiser”, como é carinhosamente chamado pelo pessoal da Captain Slate’s, nada vagarosamente com olhar curioso, como a divagar o que aquele monte de seres soltando bolhinhas de ar pela boca são realmente. Bruiser parece adorar que as pessoas passem a mão pelas suas escamas, e, apesar do seu tamanho intimidante, é um amor de peixe, muito dócil. De vez em quando, eu tomava um susto, porque Bruiser aparecia do nada ao meu lado. Em dado momento, passou por debaixo das minhas pernas – e uma criatura algumas vezes maior que eu corre o risco de entalar ali, já pensou?

Nessa festa submarina, aparecem também barracudas. Elas vêm atrás dos peixes que os divemasters trazem; entretanto, os tubarões são sempre mais rápidos que elas, que terminam ficando com os “restos” do que os tubarões comem. Naquele banquete fuzuê, é difícil escolher quem ganha o quê, vale a lei do mais rápido e mais esperto. E os tubarões ganham.

A operação do Captain Slate é muito popular e eficiente, atrai bastante gente querendo um pouco de “adrenalina” – embora eu não ache que seja realmente uma “aventura radical”. É mais emoção mesmo, de tocar os tubarões, sentir a pele áspera do animal, sua agilidade, sua perspicácia e sua fragilidade perante nós, tudo isso sem medo, apenas com respeito e bom senso. Durante toda a duração do mergulho, a gente fica ajoelhado no fundo de areia, vendo toda aquela movimentação. No final, quando os peixes-comida acabam, os animais sorrateiramente se dispersam, satisfeitos. O show acabou. (Mas todo o mergulho é registrado por um videógrafo que, óbvio, depois vende o dvd para você na lojinha do Captain Slate – afinal, estamos nos EUA – por módicos 100 dólares! Não compramos, é claro.)

Mas o legal é que a aventura com o Captain Slate não termina com o Creature Feature. Um segundo mergulho é permitido, dessa vez num recife de coral próximo, o Molasses. Foi uma boa oportunidade de explorar um pouco a fauna subaquática da Flórida, e eu confesso que depois que você mergulha no Pacífico, fica difícil se impressionar com os corais dos Keys: embora eles sejam bonitos, não são tão biodiversos como os filipinos, e perdem muito no quesito coloração exótica.

Entretanto, os recifes de corais desse parque sofrem anualmente a cada temporada de furacões, o que provavelmente explica sua maior insipiência. Os ventos em geral arrancam substratos consideráveis, misturam muito a água, e as espécies da região terminam sendo carregadas abruptamente de um local para outro. Um efeito indireto do aquecimento global, já que o aumento de furacões está em parte ligado a esse fenômeno. Além disso, os corais da Flórida recebem um volume de cerca de 30,000 mergulhadores por mês (é o local mais visitado para mergulho do mundo), o que, é claro, traz um impacto ao ambiente nem sempre positivo.

Depois do mergulho, hora de voltar pra estrada. Deixamos Key Largo para continuar nossa aventura pelo norte da Flórida, cujos detalhes ficam para um capítulo futuro…

Tudo de bom sempre.

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– Algumas cenas dessa aventura subaquática deliciosa com tubarões, barracudas e “Bruiser”, o mero gigante para vocês…

(Aviso vaidoso: não reparem no cabelo mal-prendido da modelo, totalmente ao sabor das correntes marinhas. É um o estilo fashion-eco-oceânico de novo, agora com temática aquecimento global/elevação dos mares-e-cabelos que eu, uma figura de pós-vanguarda, estou propagandeando para a moda 2050… mas que ainda não é devidamente compreendido pelo eixo Milão-Nova Iorque-Tóquio, claro! hahahaha!)

Cenas de um mergulho alucinante!

**Mais fotos de tubarões pelo mundo aqui.