Até hoje não descobri porque a cidade de Kona também é conhecida como Kailua-Kona. Por que a adição do Kailua? Eu prefiro Kona, apenas: menor, mais simples e lembra o que Kona tem de mais famoso: seu café. (Para quem não sabe, Kona produz um dos melhores grãos de café do planeta, o Kona coffee.) Mas muitas vezes, veremos escrito Kailua-Kona; saibam que, na prática, é o mesmo que Kona, pura e simples.

Quando estivemos em Kona, em fevereiro passado, eu me esbaldei no café de lá. Uma delícia! Mas me esbaldei também com o mar, e é ele que merece ser degustado aqui, tantas foram as aventuras inesquecíveis.

Kona é uma cidade pequena-mas-ajeitada, que fica do lado oeste da Big Island do Havaí, o lado mais seco, terreno árido vulcânico, com muitas rochas e pouca vegetação. O lado dos resorts de luxo afastados do mundo. O lado do vulcão dormente Hualalai. O lado dos grandes animais marinhos: tubarões, golfinhos, jamantas. O lado também que é visitado pelas baleias jubartes todos os anos entre dezembro e abril – elas viajam do Alasca até o Havaí para se reproduzir nas águas mornas tropicais. Megafauna de respeito em Kona.


Baleias jubarte, presença certa no mar de Kona entre dezembro e abril. E quando elas pulam… é um espetáculo dos mais elegantes da Terra. Mais fotos desse espetáculo-surpresa aqui.

Como estávamos na casa de um casal amigo que possuía um barquinho, saíamos todos os dias com vários sanduíches no cooler e muita animação para nos divertir o dia inteiro no mar: mergulhar, snorkelar, pescar, nadar, relaxar. E indefectivelmente, vimos baleias, que muitas vezes nos acompanharam com seus saltos, em grupos de até 6, com filhotes ou não. É indescritível a sensação de, de repente, tomar “aquele” susto porque uma baleia pulou ao lado de onde você estava tranquilamente almoçando. Ou ver um “arco-íris da baleia”, quando a luz do sol bate no vapor que sai do respiradouro dorsal delas e gera esse efeito único. Momentos que não têm preço.

Saímos 5 dias pro alto-mar, e em 2 deles, antes de nos encaminharmos rumo ao horizonte, fizemos o mergulho no Turtle Pinnacle, uma estação natural de limpeza das tartarugas, onde elas têm seus cascos limpos pelos peixes-cirurgião – uma espécie de “lava-jato” para tartarugas, e elas literalmente ficam “estacionadas” recebendo o tratamento “VIP” dos peixes, que se alimentam das algas que crescem nos cascos das tartarugas. O Turtle Pinnacle fica na saída do píer de Honokohau, e quanto mais cedo você chega no lugar, maior a chance de ver mais tartarugas na área. O mergulho é uma delícia, super-calmo, sem corrente ou perturbações, com muitos peixinhos coloridos, fauna havaiana e as tartarugas-verdes, que ficam nadando a sua volta. Lindas, lindas. (Algumas fotos podem ser vistas nessa galeria.)


…E eu lá, espiando a tartaruga-verde sendo limpa pelos peixes-cirurgião…

Num outro dia, foi a vez de aparecer um grupo bem grande de golfinhos, na mesma área das tartarugas. E pulavam, nadavam, faziam festa. Kona, aliás, é um dos únicos lugar do mundo onde os golfinhos rotadores se agregam numa baía – o outro lugar onde isso acontece é em Fernando de Noronha. Só que em Noronha, não podemos mergulhar com os golfinhos, há uma distância mínima a ser respeitada pela lei ambiental; em Kona, a restrição é apenas não tocá-los.

Outra aventura imperdível em Kona é o mergulho noturno com as jamantas, rankeado no top 10 dos melhores mergulhos do planeta. Na mundialmente famosa (pelo menos entre mergulhadores) baía de Ho’ona, durante o dia, há uma população enorme de enguias, as chamadas garden eels perto de um dos corais mais antigos da Big Island. À noite, o mesmo local se transforma, e é de noite que a fama local foi construída: holofotes imensos são colocados embaixo d’água, e as pessoas submergem até os 11m e ficam esperando, sentadas, o espetáculo começar, um verdadeiro Cirque du Soleil natural, como bem descreve o link acima. Com tanta luz e tanta gente com roupas e equipamentos coloridos, o mar à noite parece uma discoteca, cuja música reinante é aquele blurgh-blurgh-blurgh de bolhas de ar expelidas pelo bucal – e na empolgação do delírio eu tentei até ensaiar uns passos technos embaixo d’água. Os holofotes fortes atraem o zooplâncton para o local, e assim que a área fica entupida de zooplâncton (parece até que estamos na Amazônia cheia de mosquitos em volta, só que com água por todos os lados), chegam elas, as rainhas do evento: as jamantas. Atraídas para sua comida predileta, o plâncton, a jamanta fica passeando em círculos como uma pipa no (m)ar, de boca aberta para filtrar toda aquela refeição. Delicadeza e graça num balé alheio aos 60 espectadores humanos a sua volta – a manta não se preocupa com os mergulhadores por ali, a apreciar seu show. Os dive masters pedem para que não toquemos nas mantas de forma alguma, mas em certos momentos é inevitável, porque ela é quem te toca, você não tem escolha. Eu juro que quis me desvencilhar, mas a jamanta veio com tudo pra cima de mim. Sensação indescritível de verdadeira interação animal. Embora fosse noite, meus olhos brilhavam como um sol de tanta felicidade.


A Jamanta em seu balé subaquático, alimentando-se daquele universo planctônico farto que ali pairava. Mergulho imperdível na Big Island, experiência única no planeta.

Aliás, nessas saídas pro mar, em quase todos os dias o sol brilhou e reinou no horizonte, garantindo inclusive pôres-do-sol maravilhosos, dignos de fotos de cartão postal. Um dia apenas o mar estava bem revolto, com ondas chacoalhantes, e nesse dia, voltamos mais cedo para casa.

Peixes no holofotePalacio de coral
Os peixes nos holofotes embaixo d’água não entendem todo o fuzuê feito pelos mergulhadores, mas gostam da quantidade de plâncton que a luz atrai. Ao lado, o Palácio de Holihe’e no centro de Kona, feito todo com “cimento” de coral e materiais naturais da ilha, uma das estadias do Rei Kamehameha.

ABC store - KonaAeroporto de Kona
Lojinha de souvenir no centrinho de Kona – uma ABC store em cada esquina de áreas turísticas é chavão no Havaí. Ao lado, uma escultura no aeroporto de Kona, que é todo ao ar livre.

No último dia em Kona, aproveitei para andar um pouco pela cidadezinha. O centrinho é lotado de lojas de souvenir para turistas, alguns hotéis, bares e restaurantes, tudo em clima de aloha-praia. Mas é claro, estamos nos EUA, e nunca se está muito longe de um Wal-Mart ou de uma Macy’s, embora as pessoas queiram acreditar que ali é um paraíso isolado do Pacífico. Cabe a cada um realmente tornar o Havaí o seu paraíso pessoal. O aeroporto de Kona, de onde a gente se despediu da Big Island, parece carregar essa mensagem em seu design: ao ar livre, as cabaninhas simples de madeira contrastando com as modernas máquinas de raio-X servem para nos lembrar que estivemos num pedaço americanizado do paraíso. Mas ainda assim, não menos perfeito.


Uma praia típica de Kona: areia preta vulcânica, muitas rochas de lava e pouquíssima vegetação – no caso, apenas um coqueiro solitário. Abaixo, um pôr-do-sol maravilhoso e inesquecível na saída do píer de Honokohau: o paraíso é aqui.

Tudo de bom sempre.

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P.S.: 1) Existe uma preocupação ambiental de que o número de barcos de “whale watch” nessa época no Havaí esteja crescendo demais, e com isso o número de colisões com as baleias vem aumentando consideravelmente. Há um lado positivo da situação, entretanto: acredita-se também que as populações de baleias estejam aumentando, por isso, mais encontros com humanos. E em algum lugar do planeta saber que mais baleias jubarte, espécie ameaçada de extinção, têm sido avistadas, é sempre uma boa notícia.

2) Parabéns, Manu! Muitas felicidades no dia de hoje e sempre para você!!!

3) Nas seguintes galerias da ArteSub, você encontra algumas fotos de Kona: mamíferos marinhos (lá estão as baleias), golfinhos rotadores da baía de Kealakekua e tartarugas marinhas (muitas do Turtle Pinnacle).