A seta vermelha do mapa acima (retirado deste site e editado por mim) indica onde parte do meu coração estará nas próximas semanas: no atol de Ailuk, território da República das Ilhas Marshall, no Pacífico Norte. É lá que meu fotógrafo predileto vai estar.

Essa é a terceira expedição às Ilhas Marshall da qual ele participa. Como já comentei, as Ilhas Marshall não têm muitos recursos econômicos naturais, exceto seu mar. São alvo de pesca predatória por parte de muitas nações, principalmente asiáticas. Afinal, o mar é tudo que eles têm a oferecer. Para proteger esse recurso natural marshalhês que vem sendo explorado de maneira não-sustentável, o melhor seria a criação de um parque e, em última análise, a declaração da área como patrimônio natural da humanidade ou algo do gênero, o que a tornaria intocável nas leis internacionais. Mas esse processo infelizmente leva tempo, e pouco se sabe até hoje sobre a fauna da região. Não adianta pedir a governo algum para fazer um parque marinho se não se sabe o que há por lá, se não se indica no projeto as espécies ameaçadas de extinção e/ou de interesse econômico elevado (peixes de aquarismo ou de consumo, por exemplo) que residem na área, a razão pela qual aquele ecossistema merece ser preservado. É preciso angariar dados, e esses dados são necessários para a tramitação legal da criação de uma unidade de conservação. E como poucos dados existiam nas Ilhas Marshall, a ONG National Resources Assessment Surveys (NRAS) iniciou esse trabalho pioneiro de levantamento da fauna dos atóis marshalheses mais remotos e ameaçados em 2001. O objetivo final é conservar os recifes de coral das Ilhas Marshall, a diversidade neles encontrada, principalmente com o auxílio da própria comunidade marshalhesa para um desenvolvimento sustentável de estratégias de melhoria da qualidade de vida – por isso a educação ambiental da população é parte tão fundamental do projeto.

Organizar uma expedição dessas é uma tarefa muito complexa. Primeiro, arrecadar fundos, sempre escassos. Segundo, arrecadar recursos humanos, pessoas interessadas em passar um longo tempo isoladas do resto do mundo, em barracas, fazendo fogo de côcos e trabalhando o dia inteiro por uma causa maior. Terceiro, logística de organização trabalhosíssima: desde água para todos beberem até serviços de emergência – quando em um lugar remoto do planeta, mesmo problemas simples podem se transformar em tarefas hercúleas para serem resolvidos. Mas, graças a uma disposição fenomenal de um grupo de participantes super-esforçados, as expedições se realizam, e são povoadas de cientistas de vários recantos do planeta especialistas em diversos campos: peixes, tubarões, corais, invertebrados, ecologia de recifes, geologia, conservacionismo, etc. Todos ajudam, mergulhando ativamente e colhendo dados, que já renderam bons frutos para os povos locais, para os cientistas, para as Ilhas Marshall e, em última análise, para o ambiente mundial. Mas ainda não é suficiente. Existem áreas de alto valor natural das Ilhas Marshall, recantos únicos de biodiversidade, que ainda estão desprotegidas, e são nessas áreas que a cada ano o NRAS direciona esforços.

Nos anos anteriores, André ajudou no levantamento da fauna dos atóis de Rongelap, Mili e Namu. Rongelap vem desenvolvendo seu turismo recentemente, e preocupa que ainda não seja um parque marinho. O turismo, se desenfreado, pode trazer danos irreparáveis (como já visto em muitas áreas do planeta), e é nessa corrida contra o tempo que os voluntários do projeto trabalham. Esse ano, a equipe irá para o atol de Ailuk, e André já está de malas prontas para o embarque em mais essa aventura ambiental. Em todos esses atóis, várias fotos.

Muitas ações ainda precisam ser feitas pelo mundo afora para a melhoria do nosso ambiente. Entretanto, não dá para mudar tudo de uma hora para outra. É devagar, fazendo um pouquinho de cada vez, que um dia quem sabe, mudaremos o mundo. E essa região pristina de corais lindíssimos estará protegida para deleite das gerações futuras.

Tudo de bom sempre. E boa expedição a essa galera da pesada que colabora tanto na proteção dos mares do mundo.

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As fotos abaixo são de expedições passadas, mas valem para ilustrar a beleza das Ilhas Marshall, um dos recantos remotos mais exuberantes do nosso planeta.

Visões sobre a terra:

Nascer do sol no atol de Mili, e uma vista aérea do atol de Kwajelein.

Atol de Ailuk

Vilarejos e bucolismo no atol de Namu.

Mulher marshalhesa cozinhando o almoço em seu fogão tradicional: combustível de côcos secos. Abaixo, uma tradicional canoa marshalhesa, estilo comum nas regiões micronésias.

Tesouros escondidos embaixo d’água:

Uma ostra gigante em toda sua majestade (animais cada vez mais raros de se achar naturalmente) e abaixo, o detalhe do manto de uma outra ostra gigante.

Um tubarão descansando na pacatez de sua caverninha. Abaixo, um grupo de barracudas passeia pelas águas do atol de Namu.

Uma espécie de peixe-palhaço endêmica das Ilhas Marshall (Amphiprion tricinctus) em sua anêmona. Abaixo, um pedaço de recife de coral do atol de Namu.

Um coral-laço rosa (é um hidrocoral, mais especificamente); abaixo, a visão mágica dos corais perto da praia.

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P.S.: Vergonhosamente, eu, bióloga, não sabia que 22 de maio é o dia Internacional da Diversidade Biológica. Foi a Denise que me contou. Mas, por coincidência, escrevi esse post que fala justamente de um lugar riquíssimo em biodiversidade. Que viagem, não?…

P.S.2: Para comemorar a data, a Alline fez um post com dados da biodiversidade na mata Atlântica… e ela é craque no assunto, portanto, mais uma razão para todos correrem lá e lerem o post. Vale muito a pena, porque é assim que efetivamente podemos melhorar o mundo: cada um fazendo sua parte, com consciência, dedicação e primor.

P.S.3: Fotos da expedição no atol de Ailuk lá no site da ArteSub. Vale a pena conferir!