Hoje é o dia mundial da Água, e a data celebrada pela ONU tem como tema esse ano “Água e Cultura”. Com os recentes eventos, quando eu ouço falar em água e cultura, me vem logo na cabeça o Kaua’i. Explicarei.

Na última semana, o Kauai, ilha onde casei e passei minha lua-de-mel em fevereiro, tem sofrido bastante com tempestades e inundações, que já deixaram mortos, inundaram resorts e hotéis (incluindo o que ficamos!) e tem levado o governo do estado a um esforço comparável ao de quando a ilha foi varrida pelo furacão Iniki em 1992, com inspeção manual de todos os reservatórios de água. Afinal, um deles rachou e transbordou, inundando uma parte da ilha. Água em excesso.

Uma tristeza isso. Afinal, há um mês eu estava lá, tendo o momento mais especial da minha vida. E o Kaua’i que ficou na minha lembrança é o exótico, verde, cheio de vida e paradisíaco. O Kaua’i das cachoeiras escondidas, córregos, garoas constantes. O Kaua’i da Na Pali coast. O Kaua’i dos havaianos que cultuam a água por viverem cercados por ela. O Kaua’i dos lugares nota 10, que não cabem todos nessas meras linhas, mas que nos próximos parágrafos, farei o possível para pincelar.

Kaua’i é conhecida como a “ilha-jardim”, por causa de sua quantidade fenomenal de verde. Está no Guiness Book como abrigo do lugar mais úmido e chuvoso do planeta – o topo do Monte Wal’ale’ale. A chuva, aliás, é uma característica importante do Kaua’i. Chove bastante na ilha, mas em geral, é apenas garoa, que mantém a umidade constante. No período em que lá estive, choveu/garoou todos os dias – exceto na hora e no local do casamento, o que nos garantiu por sorte um bom mar azul de background fotográfico.

Mesmo debaixo de chuva, o Kaua’i ainda é incrível. Afinal, em quantos outros lugares do planeta você pode ver em um mesmo dia um cânion inacreditavelmente vermelho como o Waimea cercado de vegetação densa tropical com um riozinho no fundo e um santuário de proteção às aves em pleno penhasco à beira-mar – e com direito a uma ilha solitária em frente? Nēnēs (ave-símbolo do Havaí e altamente ameaçada de extinção) andando pelo estacionamento dos lugares turísticos com ondas de surfe no background? Praias com piscinas naturais com vista para cachoeiras altíssimas? Paisagens insólitas, únicas, majestosas… A olhos vistos, água por todos os lados, movimentos e momentos, sob a forma de vegetação rica, névoa de garoa ou ondas salgadas.


Um pedaço do Waimea Cânion, visto da estrada que o circunda. Abaixo… lembram do seriado “Ilha da Fantasia”? Pois nessa cachoeira, chamada Wailua Falls, era gravada a cena inicial, da chegada à “ilha” paradisíaca, onde o Tatoo dava colares de flores aos visitantes e as aventuras começavam. (Esse comentário denuncia minha idade, ixe…)

Quando lá estivemos, passamos um dia inteiro visitando o parque estadual do Waimea Cânion, uma fratura do terreno colapsado que rasga a ilha da montanha em direção ao mar, também conhecido como o “Grand Canyon do Pacífico”. Seus labirintos de paredões vermelhos e cachoeiras inatingíveis são vistos por várias das paradas na estrada de Koke’e que corta o parque, mas dá para fazer uma caminhada também – basta ter ânimo pros quase 20 km de subidas e descidas ao encontro do riozinho do fundo. A estrada, aliás, termina em uma das extremidades da Na Pali Coast – o vale de Kalalau, outro lugar imperdível para uma das visões mais espetaculares do Pacífico.

Um outro dia foi aproveitado no lado norte da ilha, a área de ondas surfáveis, penhascos e plantações de inhame – o taro, como é conhecido na culinária havaiana. Estávamos em Kapa’a, e com o carro alugado, fomos subindo em direção às ondas, parando em cada recanto, de Kealia Beach até o Princeville, onde no passado haviam construções russas (!) numa tentativa de dominação frustrada dos mesmos. Do topo do penhasco do Princeville, a vista para a baía de Hanalei, com toda a força das ondas quebrando em plena temporada de surfe radical. Muitos surfistas na água, profissionais filmando de cima, aquele clima de “he’enalu ‘oe” na veia.

Um pouco antes de Hanalei, avistamos uma área reservada aos havaianos legítimos (os “herdeiros de Kamehameha”), dedicada às plantações de taro. Como o taro é uma cultura alagada, o local também é um reduto de aves de estuário. Determinando-se uma área específica da ilha para plantar a comida mais importante da dieta havaiana tradicional, matam-se dois coelhos com uma cajadada só: as aves são protegidas e a cultura local é mantida. Ponto pro Kaua’i.

As plantações de taro em Hanalei, tradição havaiana. Abaixo, a ave-símbolo do estado, o Nēnē (Branta sandwichensis), que, não sei por que razão, anda sempre em “duplinhas” como essa da foto… Alline, você sabe explicar?

E nesse passeio pelo lado norte, o deslumbre ficou maior quando chegamos ao Kilauea Lighthouse, um outro reduto de pássaros – dessa vez, aos milhares. Várias espécies entocadas nos penhascos e na ilha em frente ao farol. E muitos nēnēs, livres, leves e soltos. Era temporada de baleias, e algumas jubartes também faziam festa na água. Um espetáculo completo para os biólogos recém-casados.

Num terceiro dia no Kaua’i, decidimos ir para o lado oeste, encarar a Polihale Beach. Dessa praia, podemos ver no horizonte a pequena ilha particular de Ni’ihau, onde só residem algumas famílias tradicionais que só se comunicam em havaiano. Ni’ihau é chamada de “a ilha esquecida”, pois está fora dos roteiros turísticos. Tem problemas sérios de desemprego, secas constantes, e excesso de pesca. Mas para mim, apesar dos percalços, ela é como um experimento antropológico: onde a cultura havaiana está sendo mantida em sua plenitude, para as gerações futuras não perderem a referência. É aguardar para ver até quando se sustenta.

Água do mar por todos os lados: primeiro na praia de Polihale, e abaixo, vista aérea da piscina natural “escondida” na praia de Tunnel’s Reef.

Depois de ver Polihale, voltamos para a região sul do Kaua’i: Po’ipū. Eu queria andar um pouco mais pelas praias dessa área, e dar o “até breve” final a Shipwreck’s Beach, onde meu maior sonho realizou-se. Para chegar em Po’ipū, passa-se por um túnel de árvores fantástico, como se estivéssemos entrando dentro de um universo paralelo, onde os problemas são esquecidos. Quando chegamos em Shipwreck’s, diferente do dia do casamento, o céu dessa vez estava nublado, um dia cinzento. Pois nem a garoa conteve as minhas lágrimas de emoção ao jogar meus leis no mar, uma tradição nas ilhas havaianas que lhe garante um dia o retorno a esse paraíso. E eu quero mesmo voltar para aquelas águas.

A praia de Shipwreck’s, em dia de sol. Onde meus leis foram arremessados com a promessa da volta ao arquipélago um dia. Abaixo, a estrada para Po’ipū, o caminho mágico para a dimensão do sonho.

Tudo de bom sempre.