Há algum tempo o Der Spiegel é meu jornal favorito. Antes de mais nada, boa parte dos jornais no mundo tem como fonte “básica” da informação jornais americanos ou outros de língua inglesa. No final das contas, sinto um pouco como se a informação chegasse meio “tendenciosa”. Resolvi buscar pontos-de-vista um pouco menos “americanizados” de qualquer coisa, e para tal enchi meu Bloglines de jornais estrangeiros que tenham páginas de língua inglesa (já que não sou proficiente em muitas línguas). O Bloglines facilita a organização e o processo de filtragem da informação que realmente interessa.

Além disso, como morei na Alemanha, e tenho ainda amigos por aquelas bandas, sei bem o quão politizado o alemão médio é quando comparado ao americano médio, por exemplo. Melhor dizendo, comparado a maior parte dos povos. Acrescente a isso também o fato de que os alemães são um povo ultra-organizado e que sempre tenta ver “os dois lados da moeda” (jornalistas inatos) e o fato de que a Alemanha impressiona como “nação verde” – debatível é essa mentalidade ter surgido após a destruição quase maciça do ambiente natural deles, etc. mas enfim, fato é que hoje eles são bem preocupados com a questão ambiental.

Pois bem, desde que o Katrina passou por New Orleans e deixou o berço do jazz em cacarecos, assim como boa parte da costa do Golfo americana, a mídia alemã tem sido muito contundente em ligar os pontos de que o aquecimento global tem aumentado a probabilidade de catástrofes como o Katrina, e que de certa forma, a postura da política bushista de negligenciar o Protocolo de Kyoto – protocolo este que trata de medidas para a redução da emissão de CO2, principalmente – está comprometendo toda a situação ambiental do planeta. Além do mais, todo o desvio de verbas que seriam para infra-estrutura nos estados afetados e que se tornou combustível para tropas no Iraque é também motivos de críticas pelos alemães. O governo Bush não tem muitas cartas na manga a seu favor, nesse momento.

Entretanto, é muito perigoso estabelecer uma relação de causa-efeito para o assunto do furacão – porque o Katrina foi um desastre natural, não existe culpa de fulano ou de ciclano nesse fato. Existe o evento, ponto. De qualquer forma, acho muito importante a oportunidade que temos agora de discutir pela mídia afora sobre aquecimento global de forma séria. Independente do que aconteceu em New Orleans.

A Terra já se aqueceu em períodos históricos passados muitas vezes – em geral, entrecortados por eras glaciais – por causas unicamente naturais. O que em geral tratamos na atualidade ao se falar “aquecimento global” é na verdade o aumento da temperatura atmosférica e da temperatura dos oceanos advindos da intervenção humana sobre o planeta. Sabe-se que um certo aquecimento pode ser considerado normal pela ciência, resultado de outras interações naturais. Entretanto, o que muitos estudos mostram é que a velocidade com que a Terra está se aquecendo está fora da normalidade, se medidos com equipamentos mais precisos.

Esses estudos são feitos com diferentes tecnologias, metodologias e abordam diferentes aspectos do problema. Quando os cientistas falam que a Terra está se aquecendo, em geral estão falando de dados compilados por diversos estudos que chegam à conclusões semelhantes sobre o assunto. Como não entendo nada de climatologia, meus conhecimentos de meteorologia são fracos e eu acompanho a literatura da área em geral apenas quando envolve análises biológicas, não me sinto confortável para escrever sobre estudos que envolvem esses aspectos da análise. Não dá para eu comentar profundamente sobre a diminuição da camada de gelo no solo da Antárctica ou sobre a elevação do nível dos oceanos – eu só sei as conclusões do estudo, não conseguiria fazer uma análise muito crítica do jeito que eu gosto. Entretanto, uma das provas cabais que os cientistas usam para argumentar em prol da existência do aquecimento global é o fenômeno do esbranquiçamento de corais (“coral bleaching“, em inglês). E sobre ele eu posso falar um pouquinho com mais tranquilidade.

Corais são animais cnidários, que vivem agregados em colônias associados a algas zooxantelas e acumulam carbonato de cálcio – o que nos dá aquela falsa impressão de que são apenas “pedras no fundo do mar” (não são! Estão vivos!). Corais dependem para sobreviver das zooxantelas: é delas que vem boa parte da energia e do alimento para a sobrevivência do coral em si. O que a alga ganha com isso? Um substrato para existir. Quando os corais estão agregados em longas extensões, formam o que chamamos de recifes de corais. Os recifes de corais são um substrato riquíssimo para que muitas outras espécies animais e vegetais interajam, formando um dos ecossistemas mais ricos do planeta.

O esbranquiçamento ou bleaching é o fenômeno que ocorre quando as algas associadas aos corais morrem ou são expelidas. Como são essas algas que dão a cor ao coral, quando elas se vão, o coral fica esbranquiçado – apenas sua matriz calcária resta ali. Mas não está morto. Se sua capacidade para buscar alimentos e energia não for sanada pelos pólipos que ele tem, aí sim o coral termina morrendo. Morto, ele deixa de ser substrato e abrigo para outras espécies do ecossistema – eis que mais um recife de corais se vai. E boa parte da teia alimentar vai junto, o que pode gerar prejuízos para populações que dependem de pesca para viver, por exemplo.

Acima, vemos um coral-estrela das Ilhas Marshall em suas cores normais de amarelo. O coral está muito saudável. Abaixo, vemos um pequeno peixinho em cima de um coral-estrela nas Filipinas já totalmente esbranquiçado. Não dá para saber pela foto se o coral já morreu ou não.

Corais são organismos muito sensíveis a pequenas variações estressantes de temperatura, salinidade, toxinas e até luz. Quando sentem esse tipo de estresse, em geral eles começam a esbranquiçar. Mas podem voltar a sua normalidade em alguns meses ou anos – basta o elemento gerador do estresse desaparecer. O que vemos quando entra o fator “aquecimento global” na equação, é que largas extensões de recifes de corais ficam esbranquiçadas, e esse fenômeno se associa lado a lado com medições de altas temperaturas das águas oceânicas onde os corais estão. Uma evidência contundente de que o esbranquiçamento advém de uma causa maior. Mas mais contundente ainda é quando você verifica esbranquiçamento em atóis e ilhas remotas do planeta, ou então desabitadas, sem intervenção direta do homem – é aí que a palavra “aquecimento global” grita mais alto ainda.

Um cabeço de coral no atol remotíssimo de Namu (Ilhas Marshall) em estado de esbranquiçamento; abaixo, outra razão para estresse do coral: intervenção direta do homem – no caso, um asiático se debruçando na maior cara-de-pau num cabeço de coral para fotografar sei lá eu o quê. Simplesmente ridículo.

Na história desde que se começou a medir o fenômeno (1963), três eventos de bleaching são tidos como clássicos: um em 82/83, que se estendeu por todo o Caribe, outro em 98, quando a Grande Barreira de Corais na Austrália foi profundamente atingida em diversos de seus recifes, e um terceiro em 2002, também na Grande Barreira. Nos três eventos, milhares de quilômetros quadrados (adicionado depois) de corais foram perdidos. Para sempre. Nesse momento, por exemplo, está havendo uma epidemia de esbranquiçamento na região Pacífica da América Centro-sul (Panamá e Colômbia) – a severidade do evento ainda é desconhecida. Veja o mapa abaixo (retirado da página do Reefbase) que mostra bem em que pé está o esbranquiçamento de corais hoje, 01 de setembro, no mundo (quanto mais preto, mais problemática a área):

E aqui, os recifes de corais mais ameaçados (quanto mais vermelho, mais ameaçada a área):

Mas lembrem-se sempre: o esbranquiçamento de corais é apenas um dos muitos indícios de que o planeta está se aquecendo mesmo. Dados mais lindos e precisos ainda podem ser encontrados em medições na Antárctica, em análises epidemiológicas de vírus que se espalham mais rapidamente em áreas quentes, e até em análises econômicas de ski resorts suíços onde a problemática do aquecimento também é citada.

O aquecimento global é um fato. Só não encara o problema de frente quem não quer. As soluções para ele envolvem uma mudança profunda no comportamento humano. Não é só deixar de andar de carro; é necessário investimento maciço na busca de fontes alternativas de energia, combustíveis híbridos e limpos, de novas tecnologias que não precisem da queima de combustíveis fósseis para existir. E uma política imediata de diminuição das emissões de gás carbônico, como o protocolo de Kyoto sugere.

Porque meu sonho é que as gerações futuras possam ver, compartilhar as belezas e principalmente terem a possibilidade de amar os corais das Ilhas Marshall, das Filipinas, e outras ilhotas pelo mundo com suas riquezas marinhas como eu os amo. Em todas as tonalidades de cores.

Tudo de bom sempre.

Esbranquiçamento de corais

Entre corais saudáveis filipinos… 🙂

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Viajando mais um pouco no aquecimento global…

– Quem quiser saber mais sobre outras influências do aquecimento global pelo mundo afora, essa página vinculada à ONU tem listada alguns artigos sobre o assunto.

– O blog Real Climate está desde sempre na minha lista ali do lado e é uma fonte segura de informações sobre o aquecimento global. Quem escreve são grandes nomes da climatologia mundial. São visões de quem entende (bem) do assunto. Posts que mais parecem artigos científicos, de tão detalhados e bem-elaborados. Um dos meus posts favoritos é esse aqui. Um brinco de blog.

– E esse post (também do Real Climate) traz boas evidências de por que devemos considerar as mudanças do oceano no cálculo do aquecimento global.

– Quem quiser analisar a problemática econômica em cima de tudo isso, o excelente blog Becker-Posner (Gary Becker foi agraciado com o Prêmio Nobel de Economia em 1992) tem dois posts interessantíssimos de dezembro/2004 sobre o assunto.

– E a blogosfera brasileira já está ecoando o assunto do aquecimento global. A Leila, o Smart, o Idelber… todos citando aspectos diferentes do tema. Passeiem por lá e leiam as discussões das caixas de comentários, que em geral estão muito interessantes.

– Para ver outras fotos de corais saudáveis e bonitos, visite essa galeria no site da ArteSub.

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UPDATE: Um excelente post (quase um artigo, a meu ver), explicando sobre a conexão “aquecimento global e furacões”, escrito por um cientista que entende do assunto profundamente. A visão imparcial, científica e factual do assunto. Do Real Climate, of course.

  • minheeee

    adorei fiz um trabalho com essa pagina