Hoje é dia Mundial do Meio Ambiente, uma data definida pela ONU para reflexão sobre o impacto humano no lugar que vivemos, a Terra, nos mais variados âmbitos. Acho importante que haja uma data especial para isso, embora devêssemos teoricamente pensar todos os dias no ambiente. Mas já que tantos outros problemas desvinculados do problema ambiental também assolam o mundo, na prática pelo menos um dia de conscientização já é algo a se comemorar.

Não gosto do termo “meio ambiente”, porque pra mim é redundante: ou é ambiente, ou é meio; os dois juntos dão a impressão errônea de “metade do ambiente”. (Conservar só metade??) Meu professor de Ecologia da faculdade também não gostava, e pedia sempre para usarmos um ou outro. Entretanto, meio ambiente é o termo português que se popularizou. No fundo, se as pessoas entendem o que é o ambiente, os problemas que enfrentamos e a necessidade de preservação ou desenvolvimento sustentável, já é o suficiente, em minha opinião. O termo usado vira semântica.

Poderia aqui citar vários problemas de conservação, as lutas infinitas que diferentes grupos travam em defesa do ambiente, a importância da Ecologia no nosso dia-a-dia, etc. Por exemplo, o tema da UNEP (órgão da ONU responsável por gerir a proteção ambiental) deste 05/junho é “Cidades Verdes – plano para o planeta”. Alertar sobre um planejamento urbano adequado – que no final das contas melhore a qualidade de vida do ser humano sem prejuízo ambiental – é um dos desafios do mundo atual que merece melhor avaliação e mais opções. Muito interessante, sem dúvida.

Entretanto, prefiro não discutir problemas hoje, escrever sobre o que para mim é um dos exemplos mais positivos de boa conservação ambiental sustentada no planeta: o arquipélago de Fernando de Noronha.

Vista aérea do arquipélago de Fernando de Noronha.

O Portinho da Vila dos Remédios, de onde os pescadores e barcos de mergulho saem diariamente para suas aventuras no mar…

O projeto do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha (que compreende 2/3 da ilha principal) nasceu em 1988, numa idéia luminosa do IBAMA. Nesse mesmo ano, o arquipélago passou a ser jurisdição do Estado de Pernambuco, e desde então tem se mostrado um dos maiores exemplos de como fazer uma boa política de conservação funcionar.

Fui a Fernando de Noronha em 2003, 5 dias a passeio, e estava louca para conhecer a ilha e com olhinhos e perspectivas de bióloga, entender um pouco de como esse projeto de conservação funcionava. Uma viagem sonhada ao paraíso ilhéu brasileiro. Ilhas são em geral ecossistemas limitados, e quando são povoadas, existe uma forte tendência ao surgimento de problemas gerais, como lixo e obtenção de água potável, que se não forem bem administrados, levam a um caos sem limites (vide o exemplo das Ilhas Marshall, no Pacífico). Estava curiosa para ver como essa ilha brasileira funcionava.

Assim que chegamos no aeroporto da ilha, fomos logo pagar a taxa de permanência – um preço salgado pros moldes brasileiros, mas que é absolutamente necessária para a boa manutenção desse sistema de desenvolvimento sustentado. O número limitado de visitantes em Noronha também traz benefícios: fica mais fácil gerenciar problemas típicos humanos, como consumo de água e electricidade, geração de lixo, e também permite um certo “isolamento” que dá ao turista em alguns recantos aquela sensação libertadora de ilha deserta.

Também logo percebi que o nível de engajamento da população nos desafios ambientais da ilha era muito forte. Todos sabiam explicar de forma satisfatória a importância da preservação. É claro, a chave do sucesso do programa de conservação de lá é esse: envolvimento da população! A maior parte das pessoas tira seu sustento de atividades ligadas ao turismo ou à proteção ambiental do Parque. Mas o IBAMA teve preocupação especial com os pescadores, dando atividades alternativas ou viabilizando a pesca não-predatória, de forma que eles não sentissem o impacto do projeto de preservação de forma drástica. Na realidade, uma vez que a preservação de certas áreas começa, o número de animais marinhos tende a subir, o que só beneficia a pesca de qualidade sem destruição ambiental. O pescador passou a ver a importância de preservar no seu próprio bolso.

Além disso, outra atividade primorosa é a exibição de palestras noturnas diárias na sede do IBAMA. A ilha não tem muitas opções de lazer à noite, e uma boa propaganda levou à popularização dessas palestras: elas viraram point de juventude e paquera saudável. Nada melhor que aliar diversão com conscientização ecológica. As palestras são sobre diversos aspectos da ilha, explicações sobre as diferentes espécies animais que lá habitam e são alvo de conservação mais rigorosa (golfinhos rotadores, tartarugas marinhas, tubarões, etc.). São claras, em linguajar lúcido, acessível a todos, e muito bem articuladas pelos biólogos envolvidos.

A qualidade dos biólogos que estão em Noronha é outro ponto de elogios. A eficiência com que eles conseguem envolver a população local nas estratégias de preservação é inacreditável. Eu particularmente fiquei emocionada quando um ilhéu me citou o nome em latim de uma das espécies de tartaruga marinha. E não é só isso: as pessoas têm conhecimento sobre o comportamento dos bichos, a sazonalidade de algumas espécies, até formas de reprodução (com nomenclatura biológica!) são recitadas de forma clara pelas pessoas. Biologia no dia-a-dia das pessoas, o sonho de qualquer educador ambiental.


Duas espécies simbólicas dos programas conservacionistas exemplares em Noronha: a tartaruga marinha (a da foto é uma tartaruga-verde nascendo na Praia do Leão) e os golfinhos rotadores.

E como bióloga/viajante, gostaria de ressaltar algumas peculiaridades de Fernando de Noronha que me chamaram a atenção…

– A clareza da sinalização e cuidados com as diferentes trilhas da ilha. É praticamente impossível se perder por lá, e a qualidade da orientação permite investidas no mato até ao mais urbano dos turistas, permitindo a todos o acesso a vegetação. Poder experimentar de forma saudável o ambiente é uma boa forma de conscientização.

– O reduzido número de turistas estrangeiros. Talvez tenha sido a época em que fui, mas esperava muito mais estrangeiros – principalmente europeus, que são mais mochileiros em geral. Considerando o exemplo de desenvolvimento sustentado e refúgio ecológico que a ilha é, tenho certeza que atrairia muitos ecoturistas, principalmente nas épocas do ano menos visitadas por brasileiros. Se um estrangeiro me perguntasse uma dica de turismo ecológico no Brasil (ô, pergunta difícil de responder!) eu diria Fernando de Noronha. –

O trabalho de conservação dos diferentes projetos, principalmente o Tamar na Praia do Leão, e o dos Golfinhos Rotadores, na Baía dos Golfinhos. A seriedade e eficiência com que esses projetos são desenvolvidos mostra um amadurecimento na consciência ecológica marinha nacional – ao ponto das embarcações não reclamarem sequer da proibição de se aproximar da Baía dos Golfinhos. Isso por exemplo não existe no Havaí, o outro local no planeta onde os golfinhos rotadores tendem a se agrupar num local específico, e onde os barcos chegam bem próximos aos animais. Se por um lado aproximar-se de um golfinho pode gerar mais consciência ambiental e ecológica, por outro lado, pode estar perturbando seu comportamento natural (os golfinhos que se aproximam em geral são os machos, tentando desviar a atenção do “invasor” das fêmeas que ficam mais afastadas do grupo).

– A regulamentação do IBAMA levada à sério quanto ao horário de visitação (de acordo com a maré), ao tempo de estadia e ao número de banhistas na praia do Atalaia, um aquário natural rico em vida marinha, de águas cristalinas, onde se pode snorkellar em meio a cardumes de peixes coloridos. A existência de pequenas regras, como a proibição do uso de nadadeiras, mostra o quão detalhada é a preocupação ambiental do IBAMA, em prol da biodiversidade ali existente.

Um cardume de cocorocas nas águas de Noronha, cristalinas como as da praia da Atalaia, verdadeira piscina natural.

A fauna e a flora de Fernando de Noronha provavelmente agradecem todo esse esforço que deve ser visto como um orgulho do Brasil perante o mundo.

Tudo de bom sempre para os ecossistemas do planeta.


Dois Irmãos, um dos símbolos de Fernando de Noronha, em dois momentos: visto da trilha que vai para a Baía dos Porcos, e ao entardecer na praia da Cacimba do Padre (point surfista).

*Para mais fotos de Fernando de Noronha, visite o site da ArteSub.

  • Comentários que estavam neste post quando hospedado no blogspot:
    Publiquei sua entrevista…acho que vai dar o que falar…boa semana e obrigada, cilene
    cilene | Homepage | 06.06.05 – 1:21 pm | #
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    Oi! Fernando de Noronha é o sonho que vamos realizar este ano, pelos nossos planos. Desde de que li “A Baía dos Golfinhos”, sonho com isso. Vocês mergulharam com golfinhos? É o meu grande desejo. Não sou muito esperiente como mergulhadora, mas na Ásia pudemos conhecer muito (inclusive Malapáscua por sua dica). Ainda não mergulhei com os golfinhos. Será que lá vou conseguir? Beijos, Lili
    Lili | Homepage | 06.06.05 – 2:00 pm | #
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    Cilene, eu li a entrevista, e gostei!
    Lili!! Vc tbm se apaixonou por Noronha pela leitura do livro “A Baia dos Golfinhos”?!?! Foi exatamente esse livro q na minha infancia-adolescencia me instigou a saber mais sobre Noronha. O poder da literatura…
    Eu snorkellei com golfinhos no Hawaii, e foi por acaso – eles passaram no local onde estavamos. Em Noronha eh 100% proibido na Baia dos Golfinhos. Soh os pesquisadores chegam perto. Mas vah e conheca – tenho certeza q vai gostar!
    Fico muito feliz quando vc aparece, Lili!
    Beijos!
    Lucia Malla | Homepage | 06.06.05 – 2:10 pm | #
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    Eu nunca fui a Fernando de Noronha, mas já incluí esse paraíso na minha lista de paraísos a visitar… ehehehe
    É bom ver que a nossa terra também tem bons exemplos a serem seguidos!
    Patricia | 06.06.05 – 7:19 pm | #
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    Oi Lúcia,
    Noronha é um sonho que desejo realizar assim que possível.. Talvez nas férias do próximo ano..
    Adorei seu post, assim como a entrevista da Cilene..
    Abraço e boa semana pro´cê
    Chico | Homepage | 06.07.05 – 12:39 am | #
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    Lucinha, tudo bem ?
    Fernando é um destino certo, mas devido ao preço vou adiando e conhecendo outros lugares, fazendo cursos e o tempo vai passando. Mas já insisti até para o Fla ir comigo, ele vem e tiro férias, nossa iria ser show com o brother maravilhoso então !
    O André é fotografo-biologo, ou biologo-fotografo ? Bio-fotografo talvez ? risos. Lindas essas fotos heim ! Viajei !!!!
    Ainda Lula, tive uma reunião semana passada ( sexta ) e meu diretor presidente passou algumas fotos do encontro na Korea e Japão com o Lula. Ele estava lá também !! Claro que depois da reunião comentei que minha amigona estava lá também !! Ele disse que foi o primeiro a fazer pergunta, um senhor de cabelos grisalhos, cavanhaque, não muito alto. Falou que vc deve ter visto..risos.
    Você esta muito famosa heim !!!!
    mande notícias.
    Bjs
    Pat
    Patsy | 06.07.05 – 2:16 am | #
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    Patricia, minha sugestao eh: vá a Noronha!
    É lindo demais!
    Chico, o mesmo que falei a Patricia: vá!
    Pati, sua figura, vc me mata de rir com suas mensagens! Nao lembro direito quem é seu diretor, na hora lá com o Lula eu estava tão atarantada que não me lembro de muita coisa, hihihiiih!! Ah, adorei o biofotógrafo – só vc mesmo, Pati…
    Beijos a todos!
    Lucia Malla | Homepage | 06.07.05 – 8:46 pm | #
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    Lucinha, você sabia que a Carlota é professora da Federal de Viçosa ? A doidona some de vez enquando, mas eu sempre tenho notícias pela minha prima.
    Lembrei de você, pq outro dia li seu “profile” e não fazia idéia que vc tinha estudado lá tbém !!
    Bjs
    Pat
    Saudadesssssssssssssssssss
    Patsy | 06.08.05 – 2:07 am | #
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    Lucia,
    Dei de cara com o seu blog para fins de pesquisa sobre os mesmos (mestrado em comunicação e informação). Além de ficar com a impressão de que vc é uma pessoa fora de série na vida offline, como jornalista posso dizer que a cobertura da visita do Lula foi muito legal. Sorte na vida e tudo de bom para vc.
    Adriano | 06.08.05 – 3:26 am | #
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    Lucia, querida, as fotos do André estão incríveis, mas não consegui abrir a versão ampliada, estão bloqueadas? eu, morando em Pernambuco, nunca fui à Noronha! mas é que, ao contrário do que as pessoas pensam não é táo “pertinho” assim, né? e é caro pra gente, mas um dia ainda vou! beijos!
    Denise Arcoverde | Homepage | 06.08.05 – 5:55 pm | #
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    Pat, estudei lah sim, e a Carla me disse q estava dando aulas em Vicosa. Fiquei feliz a beca por ela!!
    Adriano, fiquei muito feliz com seu elogio! Fique a vontade para viajar quando quiser por aqui…
    Denise, eu nao sei q confusao eu arrumei com as fotos nesse post, viu… eu tinha feito uma marca d’agua no Photoshop q estava funcionando bem, mas nao sei pq cargas d’agua essas fotos aih ficaram com a marca d’agua em tamanho gigante. E como esse post eu escrevi ele todinho, e PERDI TUDO ao final (tive q reescrever com aquela coragem), da segunda vez nao tive mais energia pra trabalhar em cima do problema das fotos e publiquei assim mesmo.
    A ampliacao das fotos eh bloqueada no Flickr, o host q eu uso para publicar. Uma vez q eu publico num tamanho X, o Flickr nao permite mais o aumento nem diminuicao da mesma.
    Diga quais as fotos vc estah querendo ver q eu mando por email, e aih a foto aceita ampliacao. No problem at all.
    Um beijo a todos.
    Lucia Malla | Homepage | 06.08.05 – 6:22 pm | #
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    Fernando de Noronha é um pedaço do Brasil ecológico que deu certo. É o lugar mais bonito que eu já visitei e elejo a paisagem nº 1 do mundo a vista dos morros Dois Irmãos e Baía dos Porcos.
    Tudo lá é caro mas vale cada centavo.
    Viva | Homepage | 06.12.05 – 1:33 pm | #
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    Oi Madrinha!!! Realizei meu sonho e fomos em junho agora para Noronha!! Nunca vi um lugar tão lindo e assino embaixo de todos seus comentários sobre a ilha, a preservação, os biólogos que trabalham, etc… Vi de pertinho minhas duas paixões!!! Tartarugas e golfinhos!! Ai que emoção!!! Pensei tanto em vc porque acho que Noronha é a sua cara!! Pena que mergulhamos apenas de apnéia, mas vamos fazer um curso de mergulho aqui em BH e juntar $$$ para poder voltar lá e fazer vários mergulhos!! Ler a que vc escreveu me fez lembrar todos os passeios, as tartarugas nascendo na praia do Leão, a maravilhosa praia do Sancho, Baía dos Porcos, Cacimba, ai, ai… tantas emoções!!! Obrigada por me fazer recordar da melhor viagem que já fiz em toda minha vida!!! Beijão e muita, mas muita saudade…
    Daniela Almeida Freitas Afonso | 07.04.05 – 9:18 am | #
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    Viva, vale a pena mesmo!!!
    Dani!! Vc por aqui! E fiquei super-feliz de saber q vc tbm curtiu esse paraiso!!! Q maravilha!! Depois mostre as fotos. O lugar eh pura emocao mesmo, nao dah pra segurar.
    Muito legal saber q vc tbm teve esse deleite!! Bjs a vc e todos da sua casa!
    Lucia Malla | Homepage | 07.04.05 – 4:52 pm |

  • Carlos Eduardo Rosenthal

    Realmente esse ilha é demais!

  • Marilene Veras

    Fiquei encantada com essa solução de vida saudável e consciente em um espaço do Brasil. Foi um jorro de esperança…isso que dvia sar na mídia e ser repetido para inspirar pessoas líderes a atitudes desse porte. Parabéns com orgulho de fazer parte desse mundo. Marilene.

  • Marilene Veras

    Senti falta de enviar para, ao final da reportagem. Por favor divulguem e nos deem oportunidade de divulgar.Marilene.

  • ariana da silva correa

    Fernando de noronha é maravilhoso, mergulhar por lá eh sensacional, esperiencia unicaa.

  • #demiwhiteout

    eu não achei que tipos de atividades são realizadas lá!
    rrs mas eu acho que eu puleii!