Ok, a febre do Everest me pegou de novo. É o mito de Sagarmatha. Não consigo parar de ler sobre expedições, biografias de montanhistas, cuidados de saúde para praticantes de montanhismo, etc etc. Qualquer 5 minutos na frente do computador – e nisso foi-se praticamente toda a minha noite passada – é gasto procurando fatos sobre o Everest e seus 8,848m de altura.

Não sei dizer quando essa febre começou. Desde que li pela primeira vez na Veja em 1996 sobre a tragédia daquele ano – o ano em que mais pessoas morreram vítimas da tentativa de escalada ao topo do mundo – comecei a me interessar pela magia do Everest. Aí Jon Krakauer lançou o livro dele, “No ar rarefeito”, que conta a história dessa tragédia. Sempre que eu saía de casa para comprar este livro, algo acontecia, e eu terminava adiando a compra. Adiei até abril deste ano, 2004 (08 anos!!!). Um ano antes (1995), o brasileiro Waldemar Nieclevicz finalizou a escalada, mas nesse meio-tempo entre 96 e 2004, houve a primeira descida de esqui do Everest, a primeira de snowboard, a primeira de paraglider, um americano cego chegou ao topo, um sherpa (nepalês que habita a região e altamente adaptado à hipóxia das alturas) bateu o recorde da subida mais rápida (8h e 10 min), li sobre o livro “O Meu Everest” – uma espécie de auto-ajuda aventureira, sem dúvida interessante para aficcionados do gênero – todas essas histórias entre outras bizarrices. Mas roda, roda, e a montanha volta a minha cabeça.

Nem precisa dizer que eu devorei o livro do Krakauer em um fim de semana, e que ele ainda se mantém como um dos meus livros de cabeceira: de vez em quando volto e dou uma olhadinha em algumas partes. Sim, é uma tragedia. Sim, é muito triste. Sim, é morbido. Mas a reflexão sobre escolhas na vida que aquele livro me traz… Fora toda a mítica do Everest, eh claro.

Em maio, acompanhei post a post pela Internet as expedições que chegavam ao topo, os problemas, e principalmente, a busca pelo corpo de Sandy Irvine, que um grupo “anônimo” do site EverestNews se propôs a procurar (e achar!) neste ano, com o consentimento da família. E agora, que a febre voltou por razões inexplicáveis (como tudo que envolve o Everest), me peguei atualizando a leitura do que esta expedição encontrou e as teorias.

George Mallory e Andrew “Sandy” Irvine, em 1923, foram os primeiros montanhistas a tentarem a escalada do monte mais alto do mundo. Até então, o recorde de uma expedição era até 8,000m. Não voltaram, mas até hoje existe o debate sobre se eles realmente chegaram ao cume ou não. A última teoria lançada mês passado pelo EverestNews, após intensa caça de pistas, leva a crer que os dois se separaram numa região próxima ao cume e George Mallory chegou ao pico, sendo portanto o primeiro homem da história a escalar o Everest. Entretanto, Sandy Irvine, enquanto esperava seu companheiro, sucumbiu ao frio, à hipóxia e/ou às doenças típicas da altitude (edema cerebral, edema pulmonar, desidratação extrema e hipotermia, entre outras). Mallory sofreu uma queda fatal durante a descida, e seu corpo foi encontrado apenas em 1999 (não imaginem a “aparência” que estava, urgh! Pra deixar qualquer estudante de medicina legal amedrontado). Para vocês terem uma idéia do quanto é importante a determinação desse recorde no mundo “montanhista”, os primeiros a alcançarem o pico depois de Mallory seriam Edmund Hillary e Tenzing Norgay em 1953, 30 anos depois da tentativa (e possível cume) da dupla Mallory & Irvine.

Hoje, 660 pessoas no cume depois, 142 mortes (de longe, a aventura radical que mais mata no planeta), todas as rotas possíveis esmiuçadas – e vários recordes bizarros logados – a escalada do Everest comercializou-se, e a montanha vem sofrendo (adivinhem?) os efeitos do aquecimento global. Na temporada de 2004, Sir Edmund Hillary esteve no acampamento-base (onde todas as expedições se preparam para a subida) e impressionou-se com a menor quantidade de neve que hoje existe no Everest. Impressionou-se tanto que agilizou a organização de um pedido especial à UNESCO para que o Parque do Everest seja declarado Área em Risco de Extinção, já que o derretimento do Everest pode causar futuras inundações em lagos do Nepal e do Tibet. O pedido já foi entregue à UNESCO, e aguarda votação.

Preocupações ecológicas de lado, acredito que o Everest me fascina tanto exatamente pela impossibilidade de alcance. Algo como um amor platônico – de verdade. É fato que eu não suporto frio de 0C, imagine os -70C normalmente encontrados no cume! Não conseguiria jamais lidar com a falta de oxigênio – sucumbiria de algum mal da montanha em pouco tempo. E é esse fator “inalcançabilidade” que me faz voltar, e voltar, e voltar, a ter essa febre louca.

Quem sabe o acampamento-base um dia… Apenas sonho, não se preocupem, caros amigos.

(Aff! Escrever esse post me livrou um pouco da febre do Everest. Vamos ver até quando…)

Tudo de bom sempre.

PS: Embora seja tentadora a idéia de baixar da rede uma foto do Everest e colocar aqui, é contra a lei de direitos autorais e respeitarei os direitos das agências que as possuem. Portanto, só indo ao Everest para tirar a minha própria foto, e quem sabe um dia reconfigurar este post, hihihiihih!!! Ou seja, nunca.

Mais viagens na maionese sobre o Everest:

– De acordo com profissionais de montanhismo, o Everest não é tecnicamente uma escalada difícil. O montanhismo em si nao é problema; a desidratação e a hipóxia, sim! Acima de 8,000m a pressão atmosférica chega a um terço da presente ao nível do mar! Por exemplo, se você fosse pegasse um avião ao nível do mar e fosse despejado no topo do Everest, sem aclimatação alguma, entraria em coma em ~1h.

– O Everest continua “crescendo”, assim como todo o Himalaia. A placa tectônica da Índia continua comprimindo a placa tectônica da Eurásia – e com isso cada vez mais, o Himalaia sobe – e o Everest fica por ano alguns milímetros mais alto.

– Fontes sérias afirmam que Tom Cruise tentará escalar o Everest em 2006. Após terminar as filmagens de “Missão Impossível 3”, passará o ano de 2005 se preparando para o tento. Caso tenha êxito, contribuirá para o acúmulo de mais uma bizarrice: será a primeira celebridade de Hollywood a chegar literalmente ao topo do mundo.

– O corpo de Sandy Irvine até hoje não foi encontrado.

  • Mô Gribel

    Lucia, eu tenho duas paixões: O Everest e a Antártica.
    Depois de ler tudo que encontrei sobre a Antártica e as expedições ao Polo Sul e mais o adorável A.Klink, passei para a fase Everest.
    Por mais esquisito que seja, comecei justamente com o livro que conta sobre a busca de Irvine e Mallory – Congelados no Tempo.
    Agora eu passei pro Ártico e estou adorando um que fala sobre quem na verdade chegou lá 1º, se é que um dos 2 chegaram, Scott e Cook.
    Ahhh adoro essas coisas tb!
    Sobre o No Ar Rarefeito, acho que ele deve ter algum mistério mesmo. Estive com ele nas mãos umas 4 ou 5 vezes e ainda não comprei.
    Acho que vou correndo!!! rs
    Beijos

  • Edmundo Cecilio

    Olá sua Malla… rs… o post já é antigo, mas só cheguei nele agora. Se vc gostou do livro do Krakauer, No Ar Rarefeito, experimente a edição ilustrada (em inglês), é simplesmente espetacular. E se a febre do Everest ainda continua, tente achar um tempinho para ler “Touching the Void”, que nos prende mais do que o ar rarefeito. Valeu, parabéns pelo blog.