Estou viajando. A caminho de um destino novo, para ver e conhecer amigos especiais. Uma viagem de longa e cansativa, há 30 anos de distância – um sonho a se realizar. Enquanto estou neste traslado cheio de emoção, será que você se importam de cuidar só um pouquinho dos tubarões do blog? 😉

Viajando

Desde já, a casa agradece. 🙂

Tudo de sub sempre.

Estamos na Museum Week, a Semana dos Museus, e para celebrar resolvi contar aqui um segredinho super-mal-guardado que tenho: o meu pequeno museu favorito do mundo. Que é o Bauhaus-Archiv Museum of Design. <3

Bauhaus Archiv

(Parênteses: Essa coisa de museu favorito é um pouco injusta, né? Porque é claro que o D’Orsay, o MoMa, o Tate, o Pergamon e afins são über-ultra-super-sensacionais, completos, e a maioria das pessoas vai terminar escolhendo um deles para ser seu favorito. Mas aí esquecem dos milhares de pequenos e médios museus, bem mais focados e de ambição mais modesta, que pincelam e celebram aspectos específicos da nossa vida. Não dá para comparar um museuzão de tudo com um pequeno museu aconchegante. A proposta é muito oposta. Então com este post queria também deixar registrado meu viva aos pequenos museus e galerias tão igualmente importantes que nos dão momentos singelos pelas esquinas do mundo. Fim do parênteses.

Quando morei próxima a Berlin, em 1997, um dos meus pontos prediletos de descanso e contemplação era no jardim próximo ao Bauhaus Archiv – e ficava olhando sua torre colorida e suspirando. Na época, xóvem ainda, eu me achava “a” intelectualóide pretensiosa da arte moderna e queria engolir e digerir tudo que a escola da Bauhaus trouxe ao mundo. Li livros e mais um monte de artigos, devorava filmes do tema e conversava muito com meus amigos da arquitetura, viajando na maionese sobre a Escola Bauhaus. (Sim, eu gostava do Bandeira e da Bauhaus, e de Van Gogh mas nunca engoli os Mutantes e Rimbaud me cansava. #EduardoeMônicaFeelings)

A torre colorida. <3

Então quando me mudei para Berlim e entrei pela primeira vez no Bauhaus Archiv, era a realização de um sonho há muito cobiçado. Ver as obras de Kandinsky e Klee, que emoção. As cadeiras, gente! Tudo emocionante. Passei inúmeras tardes ali, absorvendo cada centímetro da modernidade inorgânica que ele exalava.

Mas aí a gente cresce e (dizem) amadurece – nem sempre um processo de ângulos agudos como as construções da Bauhaus. E a funcionalidade pregada pelo movimento parece que floresce cada vez mais. Já não sou mais a intelectualóide de outrora; hoje tenho absoluta certeza da minha profunda ignorância sobre os meandros da arte. Ainda aprecio muito tudo que envolve arte, mas seu valor subjetivo agora é o que prevalece, mais do que sua importância em contexto artístico, histórico ou whatever.

De modo que em 2013, quando voltei a Berlim, já num outro momento do meu ~relacionamento~ com a Bauhaus, fiz questão de me hospedar por alguns dias pelo menos num hotel próximo ao museu, o Berlin Berlin. E apreciar o máximo possível a torre colorida da Bauhaus. Claro, fui algumas vezes ao museu, rever aquele espaço que tanto me abrigou em tardes descontraídas do passado. Fiquei horas no café, sentada e lendo.

O famoso telhado, marca registrada do Bauhaus-Archiv de Gropius.

O Bauhaus Archiv continuava o mesmo, pequeno, lindo, colorido, inorgânico e inspirador. Cheio de obras imortais. Depois de caminhar por seus corredores, apreciar mais uma vez as peças e móveis tão “simples” e incríveis que influenciaram quase tudo que houve depois no design e na arquitetura, saí do Bauhaus-Archiv mais leve. Ele ainda era meu pequeno museu favorito – pela viagem de vida que me instigou.

Eu mudei. Mas a admiração pela arte moderna de linhas retas e simplificadas que este pequeno museu invocou em mim, felizmente, continua a mesma. A Bauhaus significou mais que um momento da minha vida; passou a ser o que provavelmente Walter Gropius, seu criador, almejava: a arte pela arte, abrangente, sem amarras, simples assim. O contexto mudou. Mas o Bauhaus-Archiv ainda está lá, num lugar aconchegante das vivências quentinhas ao meu coração. Pretendo voltar sempre.

Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais:

  • O museu no momento está aberto, mas em processo de renovação para as comemorações dos 100 anos da Bauhaus em 2019. Um novo prédio será acoplado ao antigo do Gropius. Já estou curiosa por antecipação!
  • O Bauhaus-Archiv fica aberto das 10:00 às 17:00 todos os dias, exceto às terças. Custa 8 euros para entrar. Não vá apenas para “ticá-lo” de sua lista – mergulhe nele. A visita bacana para quem não tem uma fixação emocional com o lugar, deve levar menos de 1 hora – nunca consigo ficar menos de 2 horas, entretanto. 😀
Postado em 21/06/2017 por em Alemanha, Europa

17 de junho de 2017. Um dia histórico para a cultura havaiana.

Neste dia, a tradicionalíssima canoa Hōkūle’a atracou de volta à marina em Honolulu, vinda de uma expedição de 3 anos navegando ao redor do mundo sem o auxílio de instrumentos, apenas lendo as estrelas, o mar e os pássaros. Parando em 23 países pr mais de 60.000 milhas náuticas e espalhando o legado da rica cultura polinésia por onde passava.  Mais que isso: comprovando que os polinésios ancestrais tinham capacidade mais que suficiente para navegar pelos sete mares – e provavelmente o fizeram. Um feito simplesmente incomparável.

A jornada do Hokule’a chamou-se “Mālama Honua” – falei antes aqui no blog sobre este projeto lindíssimo de conservação e mensagem ambiental pelos oceanos que foca em cuidar da “Ilha Terra”. Mensagem humanitária, de união, coragem e empoderamento dos povos indígenas em torno deste planeta que vem carecendo tanto de mais respeito.

A jornada começou, na realidade um ano antes da saída do Hokule’a pelo mundo: Hokule’a ficou um ano em 2013 navegando entre as ilhas havaianas, com a missão de reconectar as diferentes comunidades havaianas nativas com sua culture, seu espaço e importância no contexto mundial; e conectar estas mesmas comunidades com o objetivo do Mālama Honua. Eu estava lá, no dia que esta jornada começou, acompanhando com sorriso nos olhos. Até então, tudo era um sonho – que começava a virar realidade.

Em 2014, Hokule’a começou então sua jornada pelo mundo.

Lembram que semana retrasada eu comentei sobre pontos de esperança nos oceanos? Pois nos últimos 3 anos, as newsletters do Hokule’a eram um destes pontos de esperança no mundo virtual, que me davam a sensação de que um futuro melhor é possível para as futuras gerações, apesar de todos os pesares ambientais que vivemos. A cada semana, uma atualização recheada de orgulho, realização e empoderamento. A cada semana, uma etapa cumprida.

Nos 23 países e territórios que visitou, sempre a missão de conectar-se aos grupos indígenas e ao ambiente que os cerca; sempre uma lição de como somos todos humanos, e como nossas diferenças na realidade nos fortalecem. Nestes tempos difíceis em que a intolerância permeia todos os níveis de discussão, ler estas newsletters se tornaram meu recanto confortável, onde eu recarregava baterias. Só por isso, eu já tenho muito a agradecer a todos do projeto.

Hokule'a

Okeanos, das Ilhas Marshall.

Mas aí chega o sábado 17 de junho e Hokule’a finalmente atraca em Magic Island, na ilha de Oahu. Para o fim desta jornada, dezenas de milhares de pessoas se apinharam às margens do canal de Ala Wai, inclusive alunos de todas as escolas da ilha. A cerimônia de chegada foi lindíssima, com 4 canoas havaianas tradicionais (“wa’a”) entrando primeiro. Depois a canoa tradicional Okeanos das Ilhas Marshall, país micronésio que compartilha com o Havaí a herança navegadora pelo Pacífico, e a trajetória de desprezo por décadas da cultura de navegação por estrelas (que quase morreu!) e onde um ressurgimento emocionante desta arte/conhecimento vem acontecendo.

Em seguida chegou a canoa Fa’afaite, do Taiti, entrou no canal de Ala Wai, e senti um arrepio na espinha: as duas nações navegadoras polinésias juntas, num simbolismo incrível da força que estas culturas têm para nos ensinar.

Hikianalia, a canoa-irmã.

Logo depois que Fa’faite chegou, entrou a canoa-irmã Hikianalia, que navegou pelo Pacífico espalhando a mensagem de ciência e sustentabilidade para que se construa um futuro melhor, estimulando tecnologias limpas e esperança. Quando o Hikianalia entrou pelo canal, eu já estava com meu coração parecendo que ia sair do peito de tanta emoção.

E aí… chega a canoa Hōkūleʻa. Não consegui segurar mais a emoção e as lágrimas rolaram. Todo o simbolismo desta canoa, desta jornada linda de empoderamento dos povos nativos do Pacífico (yes, they can!), do quanto precisamos cuidar desta Ilha Terra em que vivemos, tudo isto veio à cabeça quando as cordas do Hokule’a se amarraram no píer.

Hokule’a estava, finalmente, depois de tantos mares, de volta a sua casa. Ao seu povo.

As festividades continuaram pelo dia, homenageando todos que navegaram com o Hokule’a – numa demonstração enorme do poder da coletividade, houve centenas de tripulantes, capitaneados pelo lendário Nainoa Thompson, o maior navegante polinésio da atualidade. A tripulação foi recebida ao som de cantos havaianos tradicionais com todas as honras por dignatários, celebridades locais e, principalmente, pelo povo havaiano.

Hokuleʻa

Na ansiedade da chegada da canoa Hokule’a.

Ao sair dali, senti-me mais leve. Uma enorme inspiração. Uma incrível gratidão por participar deste momento de sonho realizado tão especial da cultura polinésia, que tanto adoro. Esperança, enfim.

Mahalo, Hōkūleʻa.

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Para viajar mais no Hokule’a:

  • O antropologista Ben Finney, da Universidade do Havaí, foi o primeiro a desbancar a teoria de que os navegadores polinésios ancestrais cortavam os mares a esmo. Sua hipótese de que os polinésios sabiam para onde iam e tinham um objetivo exploratório em suas jornadas foi confirmada quando Hokule’a, em sua primeira viagem em 1976, conseguiu fazer o trajeto Havaí – Taiti. Ele foi o grande articulador da construção da canoa Hokule’a, ainda na década de 70. Infelizmente, faleceu alguns dias antes de vê-la triunfar em sua volta ao mundo.
  • Resenhei há alguns anos um ótimo livro chamado “Eddie Would Go” que conta um pouco sobre a tragédia da segunda viagem do Hokule’a em 1978, quando a canoa virou ainda em águas havaianas e o surfista-mor Eddie Aikau pereceu no mar. Fica a dica a quem quiser saber um pouco mais desta história.

Em Kona, na Big Island do Havaí, um mergulho que tem se tornado cada vez mais popular é o mergulho autônomo em “black water“, ou seja no breu do mar à noite. O mergulho é oferecido por algumas poucas operadoras, como a Big Island Divers e a Jack’s Diving Locker. Como o nome já diz, é um mergulho que te faz encarar a escuridão total do mundo sub marinho – e todos os plânctons e pequenos crustáceos bioluminescentes/ coloridos que de repente ficam visíveis ao seu redor na água quando você acostuma seus olhos ao preto profundo.

O objetivo deste mergulho em black water é ver a vida microscópica que a gente não nota de dia, como as diferentes espécies de plâncton e ctenóforos. O mar fica então como se pequenos vaga-lumes estivessem acendendo sua escuridão. Mas é claro, estando no meio do mar, há probabilidade de que animais maiores sejam atraídos para o ponto de mergulho – e de repente você está na sua e dá de cara com um tubarão curioso na sua frente. Raro, mas acontece, principalmente porque ali em Kona o mar é prolífico em espécies pelágicas.

A logística do mergulho é simples. Você sai de barco do píer à noitinha e vai até um ponto afastado da costa, onde a profundidade é gigantesca – ou seja, uma área pelágica mesmo. No local de descida do mergulho, você é amarrado a uma corda de mais de 20 metros, e durante o tempo embaixo d’água você estará o tempo inteiro conectado a ela – mas você não afunda muito, se ficar a uns 15 m já é suficiente para ver bastante vida. A iluminação de lanterna é bem fraca, para que você consiga ver o máximo de bichos e algas transparentes coloridas. A visibilidade em Kona costuma ser sensacional, mas você estará no breu de qualquer forma, então esta variável não importa tanto…

A água-viva ganha um tom fluorescente na escuridão do mar.

Duas coisas acontecem então: primeiro, você praticamente fica parado, apenas em movimento vertical durante o mergulho, o que à noite gera frio; portanto um wet suit grosso é mais que necessário. Segundo, você está ao sabor da maré, indo para onde a corda te leva – e por causa deste aspecto, o mergulho em si é seguro e super-tranquilo para quem tem experiência embaixo d’água. Lógico, é um mergulho altamente desaconselhável para quem tem medo do escuro, ou de mar aberto, ou pior ainda, de ambos.

Mas, para quem encara um pouco de adrenalina no breu e tem curiosidade pelo universo micro, acho que esse mergulho será uma oportunidade única no mundo. Palavra de Malla. 😉

Tudo de sub sempre.

Onde mora o arco-íris?

Este era o título de um livro infantil da Giselda Laporta Nicolelis, que eu lia praticamente toda semana no auge dos meus 6 anos de idade. Adorava. E o que eu mais curtia no livro era o título mesmo, meio que um convite à imaginação. Afinal, o arco-íris precisava morar em um lugar, com seu pote de ouro no final. Eu viajava nesta ~questão~ de suma importância da minha infância colorida.

Mas aí a gente cresce e aprende que o arco-íris nada mais é que um fenômeno óptico de refração da luz do sol nas gotas de chuva da atmosfera como se fosse um prisma, que se “decompõe” nas sete cores que vemos, com seus respectivos comprimentos de onda. Física atmosférica, pura e simples.

arco-íris

Baixo no horizonte, sinal de sol mais alto. Esse aí, fotografado no North Shore de Oahu.

Só que, como a Física nos explica, não é qualquer chuva, nem qualquer iluminação solar que consegue produzir um arco-íris. Vê-lo no céu depende de:

  • a) Posição do sol: O seu olho de observador deve estar num ângulo de 42º do sol e sua sombra para ver o arco-íris. Baseado neste valor de ângulo, quando o sol está mais perto do horizonte, mais “alto” estará o arco formado, e quanto mais longe do horizonte o sol está, mais “baixo” será o arco (ao meio-dia, teoricamente, o arco-íris estará voltado para o chão).
  • b) Qualidade do ar: Quanto mais limpo o ar, ou seja menos poluição, menos interferência na trajetória da luz do sol, o que permitirá melhor refração – o arco-íris será mais intenso. O ar limpo das regiões costeiras é o mais indicado.
  • c) Tipo de chuva: Quanto mais isolada é a chuva, abaixo das nuvens mais densas e estando na trajetória da luz solar, mais fácil de se formar o arco-íris no céu.

E é aí que entra o Havaí nesta história.

arco-íris

Na Na Pali Coast ao entardecer, o espetáculo das sete cores.

Considerado a capital mundial do arco-íris, o Havaí tem as melhores condições atmosféricas do mundo para a formação dos mesmos. O ar é limpo e oceânico, com pouca poluição, e é super-comum cair uma chuva fininha nas áreas de montanha das ilhas, enquanto o litoral está ensolarado. Inclusive, com facilidade para ver arcos duplos, espelho que são do principal quando as condições atmosféricas estão excepcionais para tal. Cientistas especialistas em arco-íris (!!!) vêm para cá tentar entender e estudar mais detalhadamente o fenômeno.

Ver um arco-íris é tão comum no Havaí que há dezenas de palavras na língua havaiana para designar este fenômeno físico, dependendo de condições especiais – ānuenue é o arco-íris “chavão” completo no céu, ‘ōnohi é quando só um pedaço do arco aparece, punakea é quando o arco-íris está bem clarinho, e assim vai. Lembra a história das dezenas de palavras que os esquimós têm para neve? É a mesma ideia.

No vale de Manoa, costumam aparecer alguns arco-íris épicos: duplos e super-intensos.

No dia-a-dia no Havaí, também somos constantemente lembrados da frequência dos arco-íris: ele está na placa dos carros e no nome do time oficial de futebol americano (“Rainbow Warriors”) e de vôlei feminino (“Rainbow Wahine”).

Para o turista que visita o estado, é fácil ver um arco-íris durante sua estadia – basta procurar no horário e lugar certo. E para ajudar a achar, há um app, o Rainbow App, onde estão marcados os rainbow stops, com os lugares e horários mais prováveis de arco-íris naquele dia… (Mas não adianta ficar lá esperando se as condições não estiverem propícias, né?)

Rainbow stops; mapa tirado daqui.

Mas já adianto: nos meses em que chove mais (fevereiro e março), praticamente todo dia tem um no céu, principalmente de manhã cedo e à tardinha.  Sabe aquele dito popular/ pseudo-auto-ajuda que fala: “No rain no rainbow”? Morando no Havaí, literalmente é assim: mal começa a choviscar e eu já começo a olhar pro céu atrás das sete cores. (E se olhar pros vales das montanhas então… quase certo ter um lá te esperando.) Cada um mais lindo que o outro, épicos.

O que volta à questão da minha infância. Concluo que, se o arco-íris não mora definitivamente no Havaí, é com certeza um visitante frequente e ilustre. E que portanto o pote de ouro dos sonhos de felicidade deve ficar em algum canto deste estado. 😉

Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais:

  • Junho é o mês do orgulho LGBTQ, cujo símbolo é o arco-íris. Nos EUA, felizmente o Havaí é considerado um estado bem gay-friendly. Será que a inspiração constante no céu ajuda? 😉
  • Sempre bom lembrar da música que é a cara do Havaí: “Somewhere over the rainbow”, cantada pelo inesquecível Israel Kamakawiwo’ole.

Postado em 13/06/2017 por em Ciência, Havaí

… e já que o assunto da semana dos oceanos neste blog foram os hope spots, nada como deixar para a Sexta Sub desta semana um hope spot bem especial: as Bahamas.

Esperança nas Bahamas

Ali, principalmente por causa da população local de tubarões, há razões para termos bastante esperança. As Bahamas já foram um dos primeiros países do mundo a proibir a pesca de tubarão, em 2011. Além disso, é um dos países com a maior quantidade de tubarões nas praias no planeta. As Bahamas deram o exemplo ao mundo, mostrando que tubarões valem mais vivos que mortos – mergulhar com tubarões é um grande negócio para as ilhas (US$100 milhões anuais para a economia do país). Uma lição que muitos países ainda não aprenderam, por sinal.

Mas não percamos a esperança de que um dia todos prezarão da mesma forma pelos tubarões – é pra isso que os hope spots foram estabelecidos, pra semear esperança, né?

Tudo de sub sempre.

Hoje é Dia Mundial dos Oceanos, uma data que celebro desde os tempos jurássicos deste blog. Celebro porque o mar é parte de mim profunda, o lugar que me dá tranquilidade e vontade de viver, que me dá esperança para continuar a caminhada.

O tema deste ano é “Nossos oceanos, nosso futuro”, bem alinhado com o tema do dia mundial do meio ambiente de 2017, unificando ainda mais a mensagem da nossa conexão humana com o ecossistema azul.

Costumo dedicar parte significativa deste blog aos meus pitacos sobre a situação dos oceanos, em vários recantos do planeta. De um modo geral, há muitos motivos para se preocupar: o mar está sendo explorado, aquecido e poluído num ritmo acelerado demais para que possamos fazer algo.

Mas, como hoje é uma data ~celebratória~, queria aproveitar para semear um pouco de esperança. E falar dos hope spots.

O projeto de Hope Spots – os pontos de esperança – é uma iniciativa da ONG Mission Blue, capitaneada por ninguém menos que Her Deepness Sylvia Earle. Em 2009, em sua clássica palestra para o TED, ela sugeriu a iniciativa de se proteger áreas do oceano que precisam ser preservadas para que consigamos manter um mínimo de saúde para o ecossistema marinho. Locais que dariam/darão esperança para o mar e seu valor às próximas gerações. Basicamente, os pontos nevrálgicos do mar. O critério para ser um hope spot não é único; pode ser um local onde a biodiversidade é alta (como os recifes de corais), ou que sejam berçários de espécies ou corredores migratórios, ou que tenham o potencial para reverter impacto humano negativo (como os estuários), ou ainda que seja habitat de alguma espécie criticamente ameaçada de extinção ou importantes para uma comunidade humana.

Hope spots pelo mundo, em azul; os pontos em amarelo estão sendo avaliados para se tornarem (ou não) hope spots. Mapa tirado do site do Mission Blue.

Dado que menos de 4% do oceano conta com algum tipo de política de preservação/conservação ambiental, é mais que urgente que aumentemos esta porcentagem se quisermos levar a sério a manutenção dos mares. Os pontos de esperança são, portanto, uma forma de mapear prioridades, focar nas áreas mais críticas e necessárias de serem preservadas que ainda não o são (ou que precisam de mais proteção do que têm agora). É uma forma de apontar o dedo mundialmente para aquele ponto e dizer: precisamos fazer algo para conservar este pedaço azul do mundo.

Para que um ponto do oceano seja considerado como um hope spot, basta ser sugerido com uma argumentação plausível do por quê daquele ponto precisar ser preservado – a justificativa. Após a nomeação, o local é avaliado por um conselho de experts do mundo inteiro especialistas em diversos aspectos do ecossistema marinho e seu gerenciamento. Se o conselho acha plausível a sugestão, o local passa a ser um ponto de esperança. Com isso, a ONG divulga mais a importância daquele local e ajuda a focar nele para desenvolver políticas e regulamentações – ou quem sabe até transformá-lo num parque marinho…

Parede de peixes em Palau, na Micronésia, um dos hope spots.

Desde que ouvi falar nos hope spots, eu curti a ideia. Principalmente porque sendo o mar uma vastidão considerável, é difícil estabelecer prioridades. Tudo parece ser prioritário. A concepção do hope spot ajuda exatamente a focar os esforços de proteção nos pontos, dentre os milhares possíveis, considerados mais prioritários, baseado no quão crucial aquele ponto é para um pedaço maior do oceano, ou para uma população, ele merece ter seu território protegido, nem que seja parcialmente. E principalmente, o quanto ele traz esperança de ser recuperado para as gerações futuras.

E claro, isso não significa que outras áreas oceânicas importantes possam ser ignoradas. Pelo contrário, nada impede que uma área de preservação nova seja discutida por um país ou organização sem necessariamente ser um hope spot. A vantagem da designação, entretanto, é que ela já traz consigo toda a argumentação ecológica, social ou biológica para facilitar e até acelerar o estabelecimento da reserva marinha.

Abrolhos, único ponto de esperança no Brasil.

No Brasil, há apenas um hope spot, o parque de Abrolhos. Que já é um parque, mas que pelo visto, precisa de que mais seja feito para sua real conservação futura. Percebam que Fernando de Noronha não está lá na lista – talvez por falta de nomeação, talvez porque já seja um parque bem gerenciado (embora saibamos de problemas notórios).

Há uma esperança adicional que estes hope spots trazem: que aos poucos formemos uma rede de parques, que ao final das contas preserve uma porcentagem bem maior do mar – fala-se em 30% da área marinha idealmente transformada em área de preservação. Temos muita água pela frente ainda pra chegar nestes 30% – mas ter esperança não custa nada. E é isso que os hope spots trazem para os nossos oceanos: esperança.

Tudo de mar sempre.

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P.S.: O filme do “Mission Blue” tem no netflix. Altamente recomendado. 🙂

O preço do turismo sustentável

É fácil e bonito a gente falar em turismo sustentável, em escolhas ambientalmente corretas e eticamente responsáveis, em ecoconsciência e afins, e não incluir a variável que mais pesa para 99,99% das pessoas na decisão de uma viagem: o custo. Em condições ideais de temperatura e pressão no vácuo, tudo funciona como calculamos na teoria e viajaríamos de maneira 100% ambientalmente, socialmente e politicamente correta. Só que sabemos, na prática, não é bem assim.

Na prática, ainda é o preço que define a maior parte das escolhas. Infelizmente, escolher um passeio ou um hotel sustentável ainda costuma ser mais caro, muitas vezes considerado até um luxo, algo que poucos podem pagar – e cria-se um status de exclusivismo ambiental entre os que podem ser “verdes” e os que não podem. Turismo gerando desigualdade, na prática.

E em tempos de crise e stress em diversos pontos do planeta, é ainda mais triste perceber que esta desigualdade fica mais difícil de ser combatida. É quando a opção massificada, mais barata e comumente menos ecoconsciente, se torna mais atrativa. Afinal, com todo estresse que uma crise traz, aí que a gente precisa mesmo daquelas férias pra relaxar, seja lá onde for. O crivo cai. É também quando o destino massificado, exaurido, começa a impor limites de visitantes, o que invariavelmente aumenta seu preço e valor, favorecendo quem pode pagar mais, aumentando a desigualdade.

Vejo duas soluções possíveis neste cenário: abaixar os preços das opções que prezam pela sustentabilidade, ou “esverdear” as opções massificadas. Minha opinião de economista de botequim é de que ambas são duas faces da mesma moeda e precisam acontecer em paralelo.

Num primeiro momento, seria essencial que uma opção sustentável fosse incentivada a ser mais barata – por meio de subsídios, deduções de imposto, redução de custos para produtos locais e advindos (ou utilizadores) de recursos sustentáveis, etc. Mecanismos de micro e macroeconomia que dessem o pontapé inicial em uma espiral para cima: quanto mais barata a opção sustentável, maior demanda, e mais incentivo para que fique mais barata, sucessivamente. Esta ideia está no centro da proliferação dos tours de bike nas cidades, por exemplo, que trazem sustentabilidade a um preço bem mais camarada pro turista.

Em paralelo, opções que hoje são consideradas massificadas poderiam receber outros tipos de mecanismos de incentivo para se tornarem mais verdes e socialmente justas. Por exemplo, um destino massificado cujo benefício financeiro é alto em detrimento à saúde e satisfação da população local, pode impôr restrições à entrada do turista de maneira transparente, que não envolva o clássico elitismo do “vai quem paga mais” – por exemplo, o  estado do Arizona tem uma loteria cheia de regras e com 4 meses obrigatórios de antecedência para escolher todo dia os 10 sortudos que visitarão a famosa formação geológica The Wave. requer um pouco mais de trabalho, mas é sem dúvida mais socialmente justa.

Um ponto chave, entretanto, nas duas soluções que sugeri é a fiscalização eficiente. As operadoras, hotéis, lojas e comércios que lidam com turismo precisam ser avaliadas constantemente em sua sustentabilidade. Este talvez seja um ponto nevrálgico da questão. Há atualmente certificados de sustentabilidade no turismo distribuídos por inúmeras ONGs, instituições e governos. O fato destes sistemas não serem unificados dificulta a vida do consumidor, criando mais confusão para se entender o quão verde é mesmo aquele passeio ou estadia. Neste ínterim, a criação em 2007 do Global Sustainable Tourism Council, com participação da UNEP e da UNWTO, estabeleceu critérios mais claros para a definição e avaliação do que é sustentável. O que falta ainda é uma ferramenta de busca de destinos, operadoras, hotéis e outros membros do turismo, que facilite ao consumidor verificar a certificação de sustentabilidade da opção escolhida.

Mas avaliar os prós e contras das nossas escolhas em um destino para a saúde do ambiente e para a qualidade de vida da comunidade local é tarefa árdua, laborosa, muitas vezes cansativa. Uma outra forma de ~fiscalização~ não tão oficial mas de impacto significativo é exercida pela mídia. Jornalistas e blogueiros de viagem, ao divulgarem um destino em qualquer dos seus aspectos, deveriam levar em consideração com muito carinho sua sustentabilidade e o preço que se paga para isso. Afinal, os posts em blogs de viagem, as reportagens, os diversos recantos da web são hoje em dia cada vez mais porta de entrada para o planejamento de uma viagem. Ser crítico mesmo, avaliando pontos positivos e negativos, pondo na balança as diferentes possibilidades e servindo de filtro que separa o joio do trigo sustentável. Isto gera uma responsabilidade intrínseca sobre o que escrevemos, algo que termina sendo valioso para o turista que planeja sua viagem (e não tem tempo para fazer as avaliações profundas de um destino de que falei no post anterior). Ele pode economizar tempo e dinheiro, se ler uma avaliação clara, calcada nos pontos mais importantes de sustentabilidade. Façam, portanto, bom uso desta opção econômica virtual. 😉

Tudo de bom sempre.

Hoje é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Numa demonstração clara de que a UNEP, o braço da ambiental da ONU que organiza as celebrações da data, está extremamente antenada com as necessidades atuais de conservação, o tema deste ano para celebrar a data é “Conectando pessoas à natureza”.

2017 é também o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento.

E que melhor forma de conectar (ou reconectar) as pessoas à natureza que o turismo sustentável?

Embora eu tenha um pé atrás com o termo “sustentável” – porque as definições costumam ser beeeeem elásticas e a gente começa a notar pinceladas de “sustentabilidade” que na realidade são apenas o bom e velho greenwashing -, achei extremamente fortuita a conjunção destes dois temas para este ano. Sabemos que alguns dos desafios mais complexos do turismo passam exatamente pela conservação e proteção do meio ambiente, e contemplar esta realidade, fazer reflexões necessárias sobre esta conjunção, são passos positivos na solução dos problemas existentes.

Turismo sustentável não é só ecoturismo

Turismo sustentável é mais do que só apreciar a natureza de longe, como entidade abstrata externa à gente. É entender que cada uma destas pessoas é parte da natureza também – e sua visita precisa ser gerenciada de maneira sustentável em todos os aspectos.

Conservação e proteção da natureza vão muito além de criar parques nacionais ou fazer trilhas no meio do nada para ver um bicho/planta específica. Estas ações são muito importantes, partes de uma estratégia de conservação ambiental robusta e de real impacto no futuro do nosso ambiente. Mas estão longe de serem as únicas atitudes representativas de uma política de conservação atual.

Esquema ótimo retirado deste artigo.

Portanto, que fique claro: turismo sustentável não é só sinônimo de “ecoturismo” ou “turismo de natureza – precisamos desmantelar de uma vez por todas esta ideia estreita e antiquada. Turismo sustentável também não é só turismo verde, de economizar água e reusar toalhas – é isso também e mais um pouco. Turismo sustentável engloba turismo responsável, com ética e ecoconsciente, que pensa no recurso natural e humano, na responsabilidade social, cultural, política e econômica, na saúde de cada peça que o faz mover, na saúde do destino e do planeta, como o esqueminha acima demonstra claramente.

O ambiente nosso de cada destino escolhei hoje

Limites são fundamentais. A placa estava próxima ao lago de Tenno, na Itália, e diz: “Reserva de pesca. Pesca só com permissão, adquirida no Hotel Stella Alpina. Proibido pescar às sextas-feiras.”

Sabemos que numa visão mais abrangente, proteger o ambiente passa obrigatoriamente pelas atitudes que tomamos todos os dias a todo momento. Nossas escolhas de vida ajudam (ou não) a proteger o meio ambiente, seja em casa ou na China. Todas estas facetas entram nas nossas escolhas turísticas, consciente ou inconscientemente. As escolhas de vida que tomamos não se restringem à nossa casa e nossa rotina. Elas se estendem quando viajamos, quando saímos da rotina. Servem tanto quando estamos na China quanto quando acampamos em Ibitipoca.

São escolhas que diminuem a poluição, atmosférica, aquática, sonora ou visual, das nossas cidades. Que entendem os limites do patrimônio natural e/ou histórico. Que respeitam as pessoas locais, que estão ali dividindo sabedoria sobre a rotina dos lugares turísticos, onde você, turista, está apenas de passagem. Escolhas que levam em conta a realidade das mudanças climáticas. Escolhas que trazem melhorias e impactos positivos tanto para o turista quanto para a comunidade local – seja esta comunidade de pessoas, animais, plantas, ecossistemas e por aí vai.

Turismo sustentável é feito quando decidimos ir a Veneza ou a Nova Iorque, quando escolhemos uma companhia aérea, um hotel ou um passeio, quando alugamos um carro ou usamos um shuttle. Até quando desistimos de um destino, estamos fazendo uma escolha. Em absolutamente todos os aspectos de escolha de uma viagem, pode-se incorporar atos de sustentabilidade que ajudem de alguma forma na proteção do ambiente, da saúde dos ecossistemas à qualidade de vida das pessoas.

A multidão que se agrega todos os dias para ver o nascer do sol em Angkor Wat, no Camboja, já passou de qualquer limite de sustentabilidade ao patrimônio histórico.

A gente não viaja no vácuo

A gente viaja para relaxar. Ou para fazer negócios. Ou para competir num esporte. Ou para visitar amigos e parentes. Ou para experimentar sabores novos. Ou para realizar um sonho. Ou para se auto-conhecer mais. Ou para andar a esmo, sem hora marcada pra nada.

A gente viaja. Ponto.

Mas, uma coisa é certa: independente da razão que nos leva a viajar, a gente não viaja no vácuo. 

A gente viaja para um lugar do planeta que tem uma política, economia, sociedade e cultura. Que está inserido num contexto local e global. Que tem um ambiente. A gente viaja e faz escolhas para este ambiente.

Parece óbvio, mas entender as consequências desta inserção para o destino não são tão claras.

Para um destino turístico ser ambientalmente sustentável é preciso vê-lo como multifacetado, passando pelo entendimento, pelo menos parcial, dos mesmos aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais aos quais está inserido, local e globalmente, pela ética e responsabilidade de cada um dos elos que formam a corrente do turismo. Mais: sustentabilidade turística é temporal – um local pode estar viável no momento e não o ser no futuro, como é o caso de Miami que, apesar de estar fadada a afundar com o aumento do nível do mar, continua construindo prédios e hotéis à beira-mar, inserida que está num boom do turismo atualmente.

Como regra geral, toda vez que viajamos, independente da razão de nossa viagem, geramos um impacto. A resposta de cada destino para minimizar este impacto ou torná-lo positivo determina a sustentabilidade deste local como destino turístico.

Só que o turismo cresceu tanto nos últimos 10 anos, tantos pontos inacessíveis do globo se tornaram agora visitáveis por razões políticas, econômicas, sociais ou culturais, que este impacto tem sido cada vez mais claramente difícil de ser gerenciado de maneira apropriada – quiçá positiva. É cada vez mais claro que nossas escolhas turísticas muitas vezes comprometem a sustentabilidade do destino, e pedem limitações. Achar o meio-termo entre turistar e limitar é uma tarefa difícil, e destinos famosos como Veneza, Amsterdam e Barcelona vêm se desdobrando para enfrentar este meio-termo de maneira urgente, dada a situação que já beira o caos, com clara insatisfação da comunidade local.

Mas estas cidades não estão sozinhas e é muito fácil perceber este fenômeno. Multiplicam-se listasartigos, filmes e reportagens de lugares que não querem mais receber turistas – destinos exaustos, onde o turismo passou de benesse a maldição, onde as comunidades locais mais se estressam que se beneficiam desta atividade econômica. E é difícil achar uma solução para o excesso de turismo (“overtourism” em inglês), pois se por um lado viajar expande horizontes e traz benefícios concretos individuais e coletivos às pessoas e ao modo de agir delas, regras para colocar limites a esta atividade costumam soar elitistas e arrogantes – uma concepção errada, mas infelizmente a percepção ainda é essa.

Temos também o caso de destinos cuja economia é extremamente dependente do turismo, como o Camboja  (16% do PIB, de acordo com dados de 2006), mas cujo gerenciamento ainda é capenga (principalmente no nível de governo) e cujos benefícios não são compartilhados equitativamente com os moradores locais – existe o turismo, mas ele está longe de ser sustentável. Ou ainda o caso controverso do AirBnb, que muita gente não considera um problema de sustentabilidade, quando indiretamente é também: menos opções de moradia disponível para as pessoas locais e menos imposto de turismo arrecadado pode gerar dificuldade em implementar iniciativas ecoconscientes para todos da comunidade e que beneficiarão, no final das contas, o ambiente geral e a qualidade de vida. Falta responsabilidade social e accountability com a comunidade, também insustentável.

Praça de São Marcos, Veneza, no verão. É praticamente impossível não ter pelo menos duas dezenas de pessoas nas fotos – o local é dos mais visitados do planeta. (Só a Mari Campos consegue essa proeza…)

Ir ou não ir, eis a questão…

Eis aí um outro lado da moeda. Por que o lugar tem problemas de sustentabilidade… vamos deixar de ir? Para algumas pessoas, esta pode ser uma solução. Acho radical demais, entretanto. Repito: muitas vezes, a comunidade local não tem outra alternativa econômica, depende do lucro do turismo para seu desenvolvimento em áreas diversas, como saúde e educação – e sua decisão de não ir prejudicará muito mais que ajudará.

Alguns destinos impõem seu limite, e eles mesmos se fecham à visitação para evitar a degradação completa – ou enquanto uma estratégia de turismo sustentável ainda está no papel sendo discutida. É o caso de Koh Tachai, na Tailândia. Outros limitam o número de visitantes por dia, como é o caso de Hanauma Bay, no Havaí. Com isso, tanto o ecossistema respira quanto às pessoas ainda o visitam – mas de forma controlada.

Acho que a solução para melhorar a sustentabilidade dos destinos passa definitivamente por este caminho do meio, que requer muita conversa e negociação entre diversos membros do setor e a sociedade local. Passa também por uma análise específica pelos governos de cada destino que inclua o contexto político, econômico, social e cultural, para providenciarem soluções que acolham a comunidade local e não espantem de vez o turista. Mas, enquanto os governos não agem, o que podemos fazer?

Se o turista vai num lugar super-saturado e/ou mal-administrado e, ao invés de só reclamar, se esforça para fazer escolhas o mais ecoconscientes possíveis, talvez ele ajude a dar o exemplo, e aos poucos a própria comunidade local passe a incorporar opções de sustentabilidade, numa espiral pra cima. Por outro lado, se a comunidade local, apoiada ou não por seu governo, passa a oferecer opções ecoconscientes de turismo, o turista é positivamente educado a perceber o que e como se faz turismo voltado para a sustentabilidade. É o que já vem acontecendo por aí.

O turismo sustentável, a meu ver, precisa ser esse objetivo maior comum de turistas, moradores locais, governo e membros do trade. É o final de uma estrada. Mas, enquanto vamos dirigindo por esta rodovia, passamos por obstáculos e paisagens novas. A gente nem percebe, mas aos poucos, nessa estrada, vamos conectando as pessoas, turistas e moradores locais, ao seu ambiente.

Tudo de turismo sustentável sempre.

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  • Há diversos guias online práticos para quem quer ser mais ecoconsciente nas suas férias, que mostram desde hotéis mais verdes até como viajar light, sem despachar – o que influencia no gasto de combustível dos meios de transporte, by the way. Eu em geral não me contento só com estes guias, e me informo no grande oráculo quais os problemas que o turismo traz à comunidade local que visitarei (“problemas + turismo + lugar”). O conceito de comunidade aqui é largo, vai desde pessoas até ecossistemas inteiros. Em geral, os artigos que aparecem já geram ótimos insights sobre as políticas ambientais do lugar, sobre como o dinheiro do turismo flui e sobre como as pessoas locais estão se beneficiando com o turismo – sobre a sustentabilidade da atividade, afinal. De posse destes insights e informações, as escolhas ecoconscientes de viagem já se tornam bem mais fáceis de serem feitas. É um bom começo.
  • Este post surgiu da experiência com minha própria empresa de turismo. Achava que meus objetivos iniciais eram simples – tornar a viagem ao Havaí o mais sustentável possível. Mas não demorou muito para que eu percebesse que o conceito de o mais sustentável possível não era claro. “Turismo sustentável = ecoturismo ou turismo de natureza” ainda era a equação predominante. Ou seja, o buraco era bem mais embaixo. Felizmente percebo que aos poucos esta interpretação quebrada vai desaparecendo, e o real conceito amplo de turismo sustentável vai se estabelecendo. Quero acreditar que esta educação ambiental trará boas novas reflexões e inovações turísticas pro futuro… 🙂

 

Vivemos tempos estranhos. De águas turbulentas. Tantas incertezas e decisões bizarras no ar, tanta desinformação, e com tantos desafios gigantescos sérios a cavalgar.

(Eu sei, a foto não é realmente sub… mas considerando a turbulência desta água, não demora pro barco afundar. Só depende da habilidade de quem está guiando este barco – nós.)

Águas turbulentas

Agora isso.

Eu deveria estar triste com esta notícia. Mas do fundo do meu coração, acho que a gente não pode perder o foco no futuro nem a esperança. Não temos tempo para pessimismo, muito menos para desânimo. Temos que usar este momento como o que ele é: mais um obstáculo. E se unir e tentar tomar atitudes locais que façam a diferença. É hora de mostrar a força do efeito formiguinha – que já é um formigueiro cheio de ramificações e ideias interessantes. É hora de passar por cima deste obstáculo e continuar na corrida (maratona?) por um futuro mais saudável para as próximas gerações. Nada de derrotismo, o negócio é bola pra frente que ainda tem jogo rolando.

Vamos lá?

Tudo de futuro melhor sempre.

Postado em 02/06/2017 por em Sexta Sub
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