A queridíssima e amada Xará Freitas tem uma seção no blog dela às sextas-feiras em que entrevista a cada semana uma pessoa diferente. A entrevista é curta, rapidinha, porque a ideia é só um aperitivo mesmo. Esta semana, a entrevistada sou eu, Lucia Malla. Então hoje ao invés de Sexta Sub, temos “Sexta Sobre” esta blogueira que vos fala. Cliquem lá para saber mais sobre as minhas redes favoritas. 😀

E, já que hoje decidi deixar link para vocês, fica aqui também o link da galeria de fotos vencedoras da última competição do Underwater Photography of the Year. O The Guardian colocou no site deles e tem cada foto inacreditável de linda! A minha preferida é a do cavalo-marinho. Corre lá pra ver!

Tudo de sobre sempre.

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Sobre outras entrevistas que dei no passado deste blog: 

Seda. Resultado da proteína do bicho-da-seda que, utilizado pela razão humana, o transforma em fios variados, finos, coloridos e delicados.

Bodas de seda

Que, quando entrelaçados de maneira metódica, formam um tecido uniforme, macio e suave. Que, nas mãos de um artesão criativo, pode ser transformado em uma vestimenta.

O fio biológico que traz (e faz) arte.

Celebremos 12 anos entrelaçados em muita bio e arte, meu amor.

Postado em 17/02/2018 por em Mallices

Numa semana em que rolou três festas grandes – Valentine’s Day, Carnaval e Ano Novo Chinês, tudoaomesmotempoagora – deixo aqui na Sexta Sub uma foto que, por puro acaso, celebra estas três datas de uma vez só: um casal de peixes-mandarim em cópula.

Sexta Sub: Amor mandarim de carnaval

Eu sei que é uma serendipidade, mas veja só que coincidência:

  • Valentine’s Day: casal apaixonado
  • Carnaval: com esse padrão de escamas coloridas, inspiração pra fantasia não falta.
  • Ano novo Chinês: o peixe chama mandarim. Precisa ser mais literal? 😀

Esta espécie de peixe já apareceu no blog antes. A foto foi tirada na ilha de Malapascua, nas Filipinas, um destino que foi o primeiro narrado neste blog há quase 14 anos – e local pelo qual começo a sentir saudade.

Por hora, entretanto… celebremos, pois!

Tudo de sub sempre.

Hoje é o Valentine’s Day, um dia em que se celebra o amor pelo mundo anglófono. No Havaí, não é muito diferente: a gente aproveita o dia para espalhar amor – e aloha – aos queridos e queridas ao nosso redor.

(Os restaurantes lotam, reservas se fazem necessárias em quase todos os lugares, e muitos casais aproveitam para ir ao cinema, vejo várias pessoas com flores nas mãos. Love is in the air.)

Com uma pequena diferença, entretanto. Enquanto em todos os EUA continental as temperaturas gelam nesta época do ano, o máximo que pode acontecer no Havaí é chover (como hoje especificamente), mas sem stress térmico algum. Com muita desencanação e de preferência na beira da praia, para a gente olhar juntos pro mar da vida e sentir-se eternizado no vai e vem das ondas.

Valentine's Day praiano

É um dia de celebrar o amor pé na areia, que nos abraça cada dia com mais aloha.

Feliz Valentine’s Day, pessoal! <3

Nos últimos anos, Honolulu tem se tornado uma das grandes capitais mundiais da gastronomia. Com a filosofia “East Meets West” e a geografia de estar situada perfeitamente no meio destes dois mundos culinários, a cidade vem alcançando uma qualidade impressionante em seus restaurantes, com chefs cada vez mais estrelados. E o bairro que mais tem explodido de experiências gastronômicas é, sem dúvida, o Chinatown.

Top 10 restaurantes Chinatown de Honolulu

Chinatown: no epicentro da fusão culinária do Pacífico.

O Chinatown se transformou na menina dos olhos da juventude millenials da cidade – e de muitos turistas. Ficou tão trendy que já consta nos mapas como “The Arts District”. Nos poucos quarteirões deste bairro, uma revolução acontece: a cada dia, uma nova “portinha” abre como restaurante ou galeria de arte. E, como se já não bastasse ser o destino predileto para baladas da cidade, há agora o turismo foodie a cada esquina.

O cheiro de boas novidades exala um pouco da tradição chinesa misturada com a das ilhas portuguesas na arquitetura dos prédios, principalmente na confusão dos mercados de frutas, verduras e peixes. E nesta salada de influências – asiáticos vivendo na “América” com antepassados lusitanos na terra dos polinésios – a culinária só podia refletir o que de melhor cada um destes ingredientes pode oferecer, né?

Pho vietnamita com pegada havaiana? No Chinatown tem.

Toda esta miscelânea torna o Chinatown o primeiro destino que me vem à cabeça quando penso em comer algo gostoso e criativo em Honolulu (e se não for domingo, quando boa parte dos restaurantes deste bairro fecha). Decidi compartilhar com vocês meus 10 restaurantes favoritos do Chinatown de Honolulu. É comida para todos os gostos!

1. Livestock Tavern

Meu predileto em Honolulu. Já constava na minha lista de preferidos em 2015, quando inaugurou – e só melhora. A atmosfera é business casual e o serviço é muito bom. O prato mais conhecido deles é o hambúrguer de língua, mas meu favorito é o lobster roll, sempre no ponto certo. Particularmente também adoro a decoração aberta. A comida é americana com sotaque asiático e faz de tudo pra te dar a sensação de “caseira”. Recomendadíssimo. Na esquina da North Hotel St. com a Smith St.

2. The Pig and The Lady

Não tem uma lista sequer de melhores restaurantes do Havaí que não inclua o The Pig and The Lady. É o restaurante mais premiado do estado, mais inovador, mais delicioso, chef mais estrelado, mais mais tudo. Sua culinária é vietnamita fusion, inclusive com um egg coffee no menu feito com café de Kona (mas não é tão bom quanto o verdadeiro egg coffee de Hanoi). Particularmente, vou ao The Pig and The Lady pelo bahn-mi, o sanduíche vietnamita que ali eles elevam à quinta potência da gostosura. Fica na North King St. e é fácil achar: tem o desenho de um porco cor-de-rosa na porta. 😀

3. Lucky Belly

Um dos meus prediletos desde sempre e, em termos de inovação culinária, é sem dúvida o mais criativo. Não tem um item sequer do menu que eu tenha pedido e me decepcionado – tudo é sensacional. Tecnicamente, é um restaurante de bowls asiáticos (maravilhosos, diga-se de passagem), mas o cardápio diversifica e o nhoque de uni é de chorar de felicidade. O bar deles é muito bom, mas se você quiser levar seu vinho, o preço da rolha é US$15,00. Fica na esquina da North Hotel St. com Smith St. (em frente ao Livestock Tavern).

4. Sunflower Café

É uma portinha de nada na Maunakea St. e parece um restaurante pé-sujo, sem nenhuma frescura, com atendimento típico chinês (se é que vocês me entendem…). Mas vá com fé: só chinês frequenta este lugar, o que é um indicativo de sua qualidade. O dimsum deles é avantajado (o maior da cidade) e hiper-gostoso. Os preços compensam muito, são camaradérrimos, das opções mais baratas no Chinatown – cada porção de dimsum custa em torno de 3 dólares.

Bibimbap do Topped.

5. Topped

O Topped ganhou minha atenção pelo ambiente sensacional do pátio interno, com cachoeirinha, carpas e muito verde. Mas só o ambiente não teria vencido meu coração culinário, e foi aí que o Topped mostrou porque é “Top”. Suas especialidades são os bibimbaps coreanos, mas o menu tem um pouco de tudo da Coréia: kalbis, jeons, bulgogis etc. Até um mandoo de chocolate eles oferecem como sobremesa. O melhor de tudo: a pimenta vem separada (como sou alérgica a pimenta, isto já ganha milhares de pontos no meu caderninho). Quando estou com saudade dos meus tempos de Coréia, é lá que relembro o passado. O preço é justo. Fica na North Hotel St.

6. Little Village

Outro restaurante chinês que não sai da minha lista desde 2011, este pela variedade de opções no menu. Tem de tudo que você pode imaginar em termos de comida chinesa, a preços baixos. Ainda sou apaixonada pelo crispy wonton deles, que são na medida certa mesmo. Para melhorar, o Little Village é dos poucos restaurantes que oferecem estacionamento. Fica na Smith St.

7. Grondin

Um restaurante com cara de café parisiense, com um menu francês salpicado de latinidade. Com esta descrição, o Grondin já nasceu bem-sucedido, né? O preço é mais elevado, mas a qualidade do menu compensa. Simplesmente adoro a couve frita deles. Servem brunch aos fins de semana e costuma encher durante a semana para almoços de negócios. Fica na North Hotel St.

8. Epic

O Epic é uma ótima opção para você pedir diversas entradinhas acompanhadas de um champanhe e jogar conversa fora com os amigos. O restaurante tem uma pegada contemporânea e o happy hour costuma ser disputado. A quesadilla de nozes com brie é minha favorita. Fica na Nuuanu Ave.

9. Fête

Clássico restaurante que veste a camisa da “nova cozinha americana”, mal o Fête abriu e já estava encabeçando diversas premiações locais. Eu gosto bastante do Fête, mas lota muito durante a semana – é praticamente obrigatório fazer reserva. Os ingredientes são muito frescos e de excelente qualidade, e os pratos inovadores. Para um restaurante de bairro, o preço é salgadíssimo, prepare o bolso. Fica na esquina da North Hotel St. com a Nuuanu Ave.

10. Kan Zaman

Outro que já constava na minha lista anterior, porque só melhora. É o único de cozinha marroquina e libanesa em Honolulu. O ambiente do pátio nos fundos é uma delícia e à noite há apresentação de dança do ventre. O baba ghanouj deles é de comer chorando, de tão delicioso. O falafel também vale a pena. Um chef é marroquino e outro libanês – portanto o menu é a perfeita combinação destas duas influências. Fica meio escondido na Nuuanu Ave.

Bônus: Maguro Brothers

Este “restaurante” está mais pra stand e passa batido da maior parte das pessoas. Fica dentro do mercado de verduras do Chinatown na Kekaulike St., num cantinho apertado lááá nos fundos, atrás de uns freezers, e só tem 3 mesas. Mas oferece simplesmente o melhor e mais fresco sushi/sashimi da ilha – e com um preço super-acessível. Os poke bowls também são de primeiríssima. Se você curte Ásia e não se importa de comer olhando para um freezer de carnes de porco, galinha etc. este é a melhor pedida do Chinatown para comida bbb. Único problema: fecha cedo, junto com o mercado de frutas e verduras – então vá de manhã ou na hora do almoço.

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Para chegar no Chinatown: de carro, saindo de Waikiki, é só pegar a Ala Moana Boulevard em direção ao downtown Honolulu até a altura da Bethel St., que é onde o Chinatown começa. Uma outra opção é ir de bicicleta, há vários biki stops no Chinatown.

Estacionamento: o Chinatown tem vários prédios-garagens com preços bons de estacionamento. O mais barato deles é o Chinese Municipal Parking, e um deles fica na Bethel St. O bairro pode ser todo caminhado facilmente. Fique ligado apenas que a Hotel St. é exclusiva para tráfego de ônibus.

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Bom apetite em Honolulu! 🙂

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Para se deliciar mais:

Li esta semana uma reportagem da BBC Brasil contando sobre a descoberta da cordilheira marinha submersa que se encontra no litoral do Espírito Santo, na altura de Vitória e que se estende até a ilha de Trindade. A ideia é que se transforme em uma reserva marinha toda aquela área, para protegê-la e às espécies que ali habitam, como as delicadas anêmonas aí abaixo.

Sexta Sub - uma nova reserva marinha no Espírito Santo

Esta cordilheira é imensa. Conta com cerca de 30 montes submarinos e, se uma unidade de conservação for criada ali como quer um projeto de lei sugerido pelo Ministério do Meio Ambiente, se tornará a maior reserva marinha do oceano Atlântico.

Na minha terrinha querida e amada. <3

Já comecei a torcer para que este projeto se torne realidade. Seria um presente e tanto que o Espírito Santo (e o Brasil) daria para o mundo e para as futuras gerações. E uma maior garantia de sobrevivência pros delicados animais que vivem ali, como a anêmona da foto desta Sexta Sub.

Tudo de bom sempre.

Estamos na época das Olimpíadas de Inverno, que em 2018 serão na cidade de Pyeongchang,  Coréia do Sul.

Esquiando no Yongpypong Alpine Centre

Tenho boas lembranças de Pyeongchang. Afinal, foi ali que “aprendi” a esquiar. Eu, muito provavelmente a pessoa mais desajeitada que a neve já viu, nos idos de 2005 fui a um congresso de Biologia Molecular no resort de esqui de Yongpyong, onde agora fica o Yongpyong Alpine Centre que é parte do complexo principal de esqui das Olimpíadas de Pyeongchang. Durante as Olimpíadas de Inverno de 2018, ocorrerão no Yongpyong Alpine Centre as provas de slalom e esqui alpino (time).

Esquiando no Yongpyong Alpine Centre

Até que eu finjo bem, né?

Foi no Yongpyong Alpine Centre, junto com as crianças de até 8 anos, onde dei meus primeiros (e únicos) deslizes com um esqui atachado aos pés. Sim, posso dizer – cof, cof – que fui uma pré-olímpica. 😀  Mas a experiência foi tão “olim-piada” que foi pros anais deste blog em uma auto-entrevista cuja pergunta humorística era “seaquinevasseseusavaesqui”:

“(…) caí diversas vezes tentando simplesmente ficar de pé em Yongpyong, um resort de inverno na Coréia. Acho que se aqui nevasse eu me esforçaria mais para aprender. Ou tentava o snowboard.”

Tamanha falta de jeito me fez não passar do slope infantil do Yongpyong. (André se aventurou mais, nos slopes mais avançados.)

Pois eis que este resort onde fui caloura da arte de descer montanhas nevadas estará a partir da semana que vem em todas as TVs mundiais. Onde os melhores atletas do mundo gelado tentarão superar seus índices e fazer toda os chavões de alegria dos jornalistas esportivos.

Os pavilhões novos para as Olimpíadas de Inverno já estavam sendo construídos, antes mesmo de Pyeongchang saber que iria ser escolhida.

Na época em que fomos, este complexo esportivo estava sendo remodelado, com muitas partes em início de construção – ainda estava concorrendo a uma vaga para ser cidade olímpica. Mas, como tudo na Coréia, já se preparavam à toque de caixa, como se já tivessem sido escolhidos para sediar as Olimpíadas 2018, com altos planos, mapas e esquemas. Coisas da eficiência coreana.

Numa das manhãs em Yongpyong, peguei a gôndola até o cume da montanha a 1458 metros de altitude. Era janeiro, e o frio e o vento eram insuportáveis ao ponto de eu mal ficar 5 minutos fora da área coberta. Faziam míseros -2ºC, que no meu termômetro pessoal pareciam -50ºC. Confirmei no âmago do meu ser que realmente não sou uma criatura da neve. Amo ver a neve, mas ter que interagir com ela… são outros quinhentos.

Fiquei ali em cima, dentro da casinha, admirando a coragem e audácia dos esquiadores de todas as idades que não se importavam com aquele vento gelado nas costas e desciam sem temor o inclinado trajeto de esqui avançado da montanha.

Depois desta experiência em Yongpyong, visitei outros resorts de esqui pelo mundo. Mas depois de tantos tombos e quase uma perna quebrada em Yongpyong, a decisão mais sensata é deixar a neve pra quem entende dela e aproveitar o frio(zão) tomando chocolate quente. E admirar a desenvoltura dos outros ao esquiar.

Tudo de bom sempre.

E boa sorte aos atletas de inverno das Olimpíadas de Peyongchang!

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  • A gente adora uma história de superação olímpica, né? Pois eis que o hilário e determinado Pita Tofua, o atleta tongano “oleoso” da abertura das Olimpíadas do Rio, se classificou para as Olimpíadas de Inverno (!!!) de 2018. Seu esporte: esqui cross-country. Esta será a segunda vez que Tonga estará representada numa Olimpíada de Inverno.

Faz muito tempo neste blog que comento sobre o gravíssimo problema que o branqueamento dos corais do mundo é. Ameaçados pelo aumento global das temperaturas, os corais do mundo vêm sofrendo sistematicamente processos de branqueamento muitas vezes irreversíveis.

Um estudo recente publicado na Science calculou que os eventos graves de branqueamento vêm acontecendo com 4 vezes mais frequência que antes de 1980. A consequência deste fato é que os corais não têm tempo de se recuperar – e a cada ano em que (de novo) branqueiam, mais assinam sua sentença de morte. A previsão é tristíssima: de que até a metade do século, 90% dos corais estarão sofrendo anualmente branqueamento grave – ou seja, fadados a morrer.

Esta morte sofrida vem, entretanto, passando desapercebida da maioria. Afinal os corais ficam embaixo d’água, um ambiente que poucas pessoas visitam. Entretanto, já afetam a economia de diversas comunidades costeiras e preocupam lugares que dependem do turismo ligado a este ecossistema, como a Barreira de Corais Australiana e o Havaí.

O Havaí está na maioria das listas de top 10 destinos de mergulho do mundo – com certeza está na minha lista pessoal. Porque é realmente um lugar com um ecossistema tropical subaquático privilegiado, biodiverso, com muitas possibilidades o ano todo de mergulhos diferentes e recifes de corais dentre os mais lindos do mundo. Boa parte do turismo depende da manutenção saudável destes corais – e o turismo é a indústria civil número 1 do estado.

É portanto com muita tristeza que a gente percebe que, por não conseguirmos nem lutarmos mais eficientemente para diminuir as emissões de CO2, as mudanças climáticas destinam, num futuro cada vez mais próximo, os corais do Havaí a perecer.

Venha logo conhecer os corais do Havaí

Isto é uma péssima notícia pro turismo havaiano – e quando este alerta sai num artigo da conceituada Condé Nast Traveler, uma revista mundial que dita a “moda” dos destinos, torna ainda mais preocupante o futuro desta atividade econômica no estado. Pior: muito longe de ser um “exagero” editorial, o que ouvimos dos cientistas que estudam os corais é a constatação de fragilidade em que este ecossistema se encontra.

A Autoridade de Turismo Havaiana ainda não se pronunciou sobre o fato – e sinceramente, não acho que irá.

Para quem sonha em conhecer o Havaí e suas belíssimas paisagens terrestres e seus recifes mais lindos ainda embaixo d’água… acho que o mais prudente é vir o quanto antes. Antes que o número de espécies de corais do Havaí esteja pra lá de diminuída.

Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais:

  • 2008 foi declarado pela ONU como o Ano Internacional dos Corais – e aqui no blog à época bastante celebrado. Este ano, a ONU não declarou ano internacional de nada. O vácuo permitiu que a International Coral Reef Initiative, uma ONG que atua muito próxima das resoluções da ONU, declarasse por conta própria que 2018 é, mais uma vez, o Ano Internacional dos Corais. A iniciativa veio pela constatação de que, se em 2008 havia um consenso e alguma esperança de que os recifes de corais se recuperassem, agora estamos no meio de um salve-se quem puder na maior parte da cobertura coralínea do mundo. Triste demais. 
  • Todas as fotos deste post são de recifes de corais do Havaí em estado saudável. São retratos do que perderemos.

Já há alguns anos eu vinha namorando a ideia de rever Viena.

Before Sunrise

Da primeira vez que lá estive em 1997, fiz os lerês básicos em 3 dias. Amei a cidade, que é lindíssima. Mas confesso que minha volta não seria para rever os lugares sensacionais já visitados – nem mesmo a apaixonante casa do Hundertwasser. Minha volta à Viena era 100% inspirada numa viagem cinematográfica adolescente: queria passar pelos lugares que Jesse e Celine estiveram quando se conheceram na cidade, no verão de 1995, no filme Antes do Amanhecer.

Jesse e Celine são personagens da lindíssima e autêntica trilogia “Before“, do genial Richard Linklater. É uma das minhas trilogias prediletas do cinema ever. Composta pelos filmes Antes do Amanhecer (Before Sunrise), Antes do Anoitecer (Before Sunset) e Antes da Meia-Noite (Before Midnight), conta a trajetória de Jesse e Celine, interpretados de forma magnânima por Ethan Hawke e Julie Delpy.

Em conjunto, a trilogia é das histórias de amor mais inspiradoras e realistas do cinema. Seus 9 anos de separação entre um filme e outro dão um tom certeiro de contemporaneidade ao roteiro. Afinal, os atores (e todos nós…) envelheceram junto com seus personagens. Os 3 filmes são um continuum perfeito, uma jornada sobre o amor através do tempo.

Entretanto, o aspecto crucial que me fez favoritar esta história é que são filmes de… viagem. Em cada um dos filmes, Jesse e Celine se encontram em um local da Europa e andam despretenciosamente pela cidade, conversando, filosofando, trocando ideias e viagens na maionese com aquele olhar apaixonado cheio de derretimento e cumplicidade.

No primeiro filme, andam por Viena; no segundo, por Paris; e no terceiro, pelo Peloponeso na Grécia. O primeiro filme em Viena chega a ser ingênuo de tão mochileiro (como o amor da juventude é…), o segundo é apaixonante e super-sexy sem ter sequer uma cena de beijo (ah, Paris!… ah, sábio Linklater!…), e o terceiro é sobre a rotineira batalha da manutenção do amor (no berço das tragédias, a Grécia).

Então que em agosto de 1997 apareceu a oportunidade de eu ir a Europa para um congresso. A idéia de fazer meu “roteiro de filme” sussurrava no meu ouvido. Resolvi colocá-la em prática. Passei dias fuçando os locais exatos das locações, suas distâncias, etc. Até que finalmente montei MEU ROTEIRO DE FÃ PELA VIENA DE ANTES DO AMANHECER. Compartilho no blog para quem quiser se aventurar também nesta viagem cinematográfica. Enjoy.

1º DESAFIO: MONTAR O ROTEIRO

No filme, Jesse e Celine se encontram num trem de Budapeste a Viena e, ao descerem em Viena, ficam menos de 24 horas andando pela cidade. Então meu objetivo era visitar o maior número possíveis de locais do filme em 24 horas.

Mas baseado no que li em diversos fóruns e posts em blog de fãs inveterados, logo veio o balde de água fria: 24h era pouco tempo para visitar os pontos da cidade em que eles foram. Apesar do filme dar a aparência de que todos estes locais eram perto, na realidade alguns são bem distantes. Então meu primeiro desafio era montar um trajeto que fosse o mais eficiente possível englobando o máximo de locações possíveis.

Para tal, precisava encontrar uma lista completa (e confiável) das locações do filme. Veja bem, todo post de fã que eu lia falava dos mesmos lugares: a Roda Gigante (Riesenrad), o Kleines Café, o museu Albertina. Mas os lugares mais obscuros, as ruas desconhecidas por onde Jesse e Celine andaram… estes eram uma charada para serem descobertos. Achei uma empresa que oferecia em 2012 e 2013 um walking tour do filme para ser feito por conta própria ou com guia, e o link me ajudou com algumas locações. (Interessantemente, não se oferece mais este tour em Viena. Será que o filme não faz a cabeça dos millenials?)

Muitas googladas depois, cheguei numa listinha de locais que considerei factível para 24h em Viena. Desconsiderei apenas o Cemitério dos Desconhecidos (Friedhof der Namenlosen), que fica muito longe, sem transporte público até lá. Deixei-o na condição de “se der tempo”. E montei um mapa da caminhada.

Logo de cara percebi que seria pauleira demais em um dia andar 25.7 km e curtir os locais – afinal, de que adianta revisitar os lugares do filme apenas para ticar da lista? Eu queria me sentar no Café Sperl e tomar um drink, andar na Riesenrad e admirar a cidade do alte, ler poesia na beira do Donaukanal. Maraturismo slow, se é que esta disparidade conceitual pode em algum momento existir.

Então bolei uma outra estratégia: uma lista de qual locação ficava perto de cada estação de metrô. A lista ficou assim:

Pra não dizer que fui à Viena e não vi a Catedral de São Estevão.

A lista me ajudou psicologicamente a achar que conseguiria ver bastante em 24h. Como eu ia em agosto (verão), quando o sol se põe só às 22h, o dia super-longo me ajudaria a percorrer o máximo de locações.

Mas também tentei não me encanar demais: alguns pedaços do roteiro iria decidir na hora, baseado nas proximidades. Sem stress e com limonada. Outro fator que me deixava mais tranquila é que falo um basicão de alemão, portanto caso algum problema aparecesse, conseguiria pelo menos me fazer entender.

Antes de viajar, também dei uma olhada no que estaria rolando em termos de shows nos clubs desta lista – Roxy e Arena Vien. Roxy é onde no filme Jesse e Celine pedem “emprestado” uma garrafa de vinho. Na Arena Vien, foi filmada a cena do jogo de fliperama. Infelizmente, nada de interessante nas duas noites que teria na cidade nestes clubs. Então meio que os cortei da minha lista, iria deixar pra ver na hora se dava pra visitar ou não.

2º DESAFIO: ONDE FICAR EM VIENA

Viena é uma cidade enorme, super-turística, com inúmeras opções de estadia. No verão, a cidade lota, então era fundamental reservar com antecedência. Queria ficar perto de uma das locações do filme, de preferência a mais central, para economizar tempo de caminhada. Mas também não queria ficar no meio demais da muvucada turística. #Dilema

Neste momento, meu coração de fã falou mais alto. Reservei o hotel Kaiserin Elisabeth exclusivamente pela localização, a um quarteirão do Kleines Café, onde uma das minhas cenas prediletas do filme aconteceu. O ceticismo de Jesse neste minúsculo café ouvindo que “somos todos stardust” indicavam que este era um ponto onde eu queria sentar e apreciar a cidade.

O hotel se provou uma excelente escolha. O prédio é mais antigo, ainda com um elevador de porta sanfonada, cheio de história. O quarto era simples e limpo. Mas a melhor surpresa foi o café da manhã, com diversos queijos e geléias – o que no dia D do roteiro foi fundamental para me dar energia para tanta caminhada.

ANTES DO AMANHECER

A quiromante lendo a mão de um cético Jesse.

No filme, Jesse e Celine chegam de trem em Viena ao cair da tarde. Apesar de ter tentado, ficava impossível para eu vir de Estocolmo de trem com o pouco tempo que tinha. Cheguei em Viena à noite, depois de um vôo da Air Berlin com conexão rápida em Berlim Tegel (mas suficiente para uma Berliner Weisse verde!). Fui de CAT (City Airport Train) até a estação central de Viena e de lá peguei o metrô até Stephanplatz. Tudo sossegado, porque o sistema de transporte público da cidade é muito fácil. Ali, já comprei o day pass do metrô para não perder tempo no dia seguinte.

Fui direto pro hotel, despejei minhas malas e saí pra jantar… no Kleines Café, lógico. Antes mesmo de começar meu “24 horas na Viena de Antes do Amanhecer”, eu já estava visitando uma das locações do filme. #WIN

Por estar na Franziskanerplatz, um pouco mais escondido do burburinho turístico ao redor da Stephanplatz, o Kleines Café é super-tranquilo. Adorei o clima mais alternativo do que é considerado o menor café de Viena. Como todas as mesas na praça estavam ocupadas, sentei dentro do café e enquanto bebericava um champanhe e comia um sanduíche, apreciei cada detalhe da decoração e dos clientes, num adorável people watch. Meu coração palpitava enquanto eu me beliscava non-stop: estava mesmo ali realizando meu sonho de conhecer a Viena de Antes do Amanhecer!

O Kleines Café estava fechando de madrugada quando finalmente voltei pro hotel para descansar para o ~maraturismo slow do dia seguinte. E seja o que Linklater quiser.

NOS PASSOS DE JESSE E CELINE POR VIENA

No dia D do meu passeio, acordei antes do amanhecer (pun intended) para ser a primeira no café e começar minha maratona pela Viena do filme. Ou seja, dormi pouquíssimo – mas sinceramente, nem me abalei, o mood era curtir a cidade sob outra ótica.

O dia estava com um céu azul maravilhoso e a temperatura de verão ideal para minhas caminhadas. Depois do cafezaço, passei de novo pela frente do Kleines Café (que estava fechado), a caminho do metrô para a Westbanhof. No filme, é ali que Jesse e Celine chegam de trem animados pelo desconhecido, e depois se despedem, surrupiando nossos corações para um destino aberto. <3

Da Westbanhof, peguei o metrô U3 até o Volkstheater. Ao sair da estação, a vista lindíssima do Museu de História Natural de Viena me fez relembrar claramente porque em 1997 achei Viena das cidades mais inesquecíveis da minha mochilagem pela Europa. Nos 20 anos entre aquele momento e o dia de hoje, eu havia esquecido como Viena era bela – shame on me. Agora a cidade revidava, me jogando na cara a cada esquina tal esquecimento.

Apesar de adorar museus de história natural, meu foco no filme me fez ir direto para a Maria Theresien Platz, onde Jesse e Celine andaram descontraidamente ao som da música “Come Here” da Kath Bloom.

Estando nos arredores da Maria Theresien Platz, resolvi andar pela Mariahilfe Strasse até a Windmühlgasse, passando por um beco l-i-n-d-i-n-h-o, cheio de cafés e lojinhas artesanais.

Na Windmühlgasse fica a loja de discos vinis Schallplattenhandlung Teuchtler, com sua característica placa “Alt & Neu”, que é vista no filme.

A Viena de Antes do Amanhecer

Era ainda cedo demais e a loja estava fechada. Uma pena, porque queria muito ter visitado o listening booth em que Jesse e Celine ouvem a música da Kath Bloom. Pela vitrine, vi as fileiras e mais fileiras de discos antigos.

Neste momento, tomei uma das decisões acertadas do dia. Ali perto ficava o Café Sperl, mas, ao invés de ir até lá, decidi pegar o metrô Neubaugasse (U3) e descer na estação Herrengasse, para andar até a Igreja Maria am Gestade. Pelo que eu tinha lido em um artigo delicioso de Duncan J. Smith, esta igreja antiga é uma esquecida pérola do gótico vienense.

E é mesmo. Espremida que está ao fim de uma escadaria/ruela da cidade, a igreja estava quase vazia quando entrei. Uma senhora acendia incensos no altar enquanto algumas poucas pessoas rezavam – e só.

O fresquinho de dentro da igreja me fez ficar sentada ali uns bons minutos, refletindo sobre a experiência. No filme, Jesse e Celine entram na igreja à noite, sentam-se lado a lado e, enquanto admiram a arquitetura interna da igreja, sussurram um ao outro alguns casos de suas vidas, incluindo um apropriado diálogo sobre crer ou não em deus.

Da Igreja, andei pela Hohenstaufengasse até a Mölker Bastei, onde parei para uma água com gás no 3Raum, um restaurante italiano bem simpático. O restaurante fica perto da Universidade de Viena em frente a um pequeno morro da cidade, onde estão alguns dos últimos pedaços da muralha que circundava a Viena antiga e que hoje formam a Innere Stadt. E também onde foram filmadas algumas das “andarilhações” noturnas de Jesse e Celine, pela Mölker Steig. Era dia, então aproveitei para explorar este morro – o pequeno bairro é extremamente calmo e agradável de se caminhar, cheio de recantos fofos. Pouquíssima gente na rua.

Mölker Steig no filme…

… e na vida real.

Ali perto, fica outra locação do filme – esta bem breve. Jesse e Celine passam de bonde pela Sigmund Freud Platz e avistam rapidamente a Votivkirche, uma igreja em estilo neogótico que fica na cara do Ringstrasse, a principal via que circunda Viena antiga.

Votivikirche.

No subterrâneo desta região, há diversos pontos de tram/bonde. Como uma das primeiras cenas deles em Viena é dentro de um bonde vermelho do Ringstrasse, esperei um dos bondes antiguinhos passar para entrar e sentar – no último banco, como no filme.

Já era quase meio-dia, hora de passear num parque cheio de árvores ou procurar um ar condicionado. Desci no ponto Burgring em frente ao Burggarten, onde fica um monumento ao cidadão mais ilustre da cidade, o músico Mozart. Logo ali atrás, a poucos metros pela sombra, ficava a entrada lateral para o Albertina.

O Museu Albertina é um dos mais importantes de arte moderna do mundo. A sala de impressionistas é das que me marcaram profundamente na minha prévia visita em 97.

Naquele momento, entretanto, meu interesse era olhar do balcão principal para a cidade de onde Jesse e Celine admiraram o prédio da Ópera em frente – e sentar-me nos degraus da estátua do Duque de Teschen, Alberto Frederico, um dos generais do império austro-húngaro.

Balcão para a Ópera Vienense.

Neste local, já amanhecendo, Jesse, com Celine em seu colo, recita o poema “As I walked out one evening” de W. H. Auden:

“But all the clocks in the city
Began to whirr and chime:
‘O let not Time deceive you,
You cannot conquer Time.

‘In headaches and in worry
Vaguely life leaks away,
And Time will have his fancy
To-morrow or to-day.”

Esta é uma das cenas mais memoráveis de Antes do Amanhecer – tanto que foi para o cartaz de divulgação do filme. Parada obrigatória, portanto.

Como o sol estava massacrando, resolvi aproveitar o Albertina e seu ar condicionado por uma horinha. Em cartaz, a exposição “De Monet a Picasso” que não necessita de explicações. Também estava em exibição algumas das novas aquisições de arte contemporânea do museu, incluindo o maravilhoso “Wall Paper with Blue Interior” do Roy Liechtenstein e “Mao” de Andy Warhol.

Refrescada, saí do Albertina pelo parque novamente e andei pela Eschenbachgasse até o Café Sperl.

Os fãs loucos de Before Sunrise entenderão: o Café Sperl é talvez a parada mais obrigatória de todo este roteiro. Por uma razão simples: é nele que se passa a cena mais adorável de todo o filme – e uma das minhas top 3 cenas mais encantadoras da trilogia.

Dentre tantos cafés e cervejas que Jesse e Celine tomam juntos no filme, este é o mais inusitado pela simulação das ligações telefônicas que fazem aos amigos – e quando criativamente se declaram um ao outro.

Ambiente interior do intelectual Café Sperl.

Em meus planos iniciais, cogitara talvez me hospedar ali perto. Se o fizesse, tomaria café da manhã ali. Mas como no fim fiquei pelo centrão mesmo, decidi que almoçaria no Sperl. E foi o que fiz. Sentei exatamente no mesmo booth onde Linklater gravou a cena e pedi um spritz e uma salada de salmão sensacional. A garçonete obviamente percebeu minha animação em estar ali e como estava sozinha, veio sorridente puxar papo.

Almoço na mesma mesa de Jesse e Celine: não tem preço.

O Café Sperl foi inaugurado em 1880 e é dos cafés mais tradicionais e históricos de Viena, visitado desde sempre pela nata da intelectualidade e das artes da cidade. Foi nele que o movimento artístico Secessionista de Viena foi inicialmente idealizado em 1897, sob a liderança do pintor Gustav Klimt.

O almoço me deu ânimo e energia para encarar a maior dúvida do meu roteiro: ir ao Cemitério dos Desconhecidos (Friedhof der Namenlosen ou Cemetery of the Nameless). Diferente do que parece no filme, este cemitério fica beeeem afastado da cidade, numa área agrícola-industrial do subúrbio de Viena. Praticamente no meio do nada, só vi indústrias ao redor do cemitério.

Para chegar lá, peguei o U3 até a última estação, Simmering. Saindo da estação, peguei um táxi até o cemitério, já que não dá pra chegar no mesmo de transporte público. Combinei com o taxista para me aguardar no carro enquanto eu fazia a visita ao cemitério, e ele gentilmente topou sem aumentar a tarifa.

O pequeno Cemitério dos Desconhecidos.

O Cemitério dos Desconhecidos é bem pequenininho e suas covas estavam repletas de plantas. No filme, Celine lembra-se de ter visitado o cemitério ainda adolescente e conta uma história pra lá de melancólica sobre uma das mortas ali enterrada. Na vida real, o cemitério é uma triste lembrança histórica de Viena, onde foram enterrados inúmeros corpos de vítimas de afogamento não-identificadas que eram levados pela corrente do Danúbio até a cidade no início do século passado. Hoje, como não aparecem mais corpos no Danúbio (e se aparecem são rapidamente identificados), o cemitério se tornou um atrativo pitoresco, com uma capela circular simples, raramente visitado de acordo com todos que consultei. Praticamente uma curiosidade que, graças ao filme, tive a oportunidade de conhecer.

O taxista ia me levar de volta à estação de Simmering do metrô. Mas olhei rapidamente no GoogleMaps e vi que era uma rodovia reta até a próxima locação do meu mapinha, o Parque de Diversões de Prater. O taxista não piscou e rapidamente pegou a rodovia A4.

O Prater é onde fica a famosa Roda Gigante (Riesenrad) onde Jesse e Celine se beijaram pela primeira vez. <3  Esta é uma das rodas gigantes mais antigas do mundo. Antes de subir em seus carrinhos vintage de madeira, a gente passa por um pequeno museu onde estão expostos diversos carros antigos com maquetes de momentos históricos de Viena e da Roda Gigante desde sua inauguração em 1897, como por exemplo sua completa reconstrução depois da Segunda Guerra Mundial.

Andar na Riesenrad custa 10 euros, e dá direito a uma volta apenas. Entretanto, a circulada é super-vagarosa, então uma voltinha é mais do que suficiente.

Os carrinhos de madeira são um charme e por dentro são até bem grandinhos – deve caber umas 15 pessoas por carro. A vista de Viena do alto vale muito a pena, principalmente com o dia ensolarado.

No filme, Jesse e Celine pegam a Riesenrad durante o entardecer, o que dá mais romantismo ainda à cena; quando visitei, um casalzinho adolescente namorava disfarçadamente no mesmo ponto da cena do filme… Uma coincidência fofa que me tirou suspiros. <3

Era verão e o Parque de Prater estava lotadíssimo de famílias e crianças. Em todas as atrações uma fila interminável. Assim que desci da Roda Gigante, dirigi-me para o metrô ali perto de Pratestern e peguei o U2 até Schwedenplatz, para continuar minha caminhada à próxima locação: a Zollamtsteg Bridge, a ponte onde logo no início do filme Jesse e Celine são convidados por dois estranhos a assistir a uma peça de teatro sobre uma vaca.

A Ponte verde é notável, mas confesso que achei menor que imaginava. Uma das delícias, entretanto, foi poder caminhar tranquilamente à beira do canal da Schallautzerstrasse sem pressa e sentar-me próxima à ponte para comer uma barrinha de granola.

A Viena de Antes do Amanhecer.

O navio-piscina.

Já era meio da tarde e estando perto, resolvi voltar na direção da Schwedenplatz e fazer uma longa caminhada pelo Donaukanal, que também aparece no filme. Como as cenas do filme foram à noite, é difícil reconhecer onde exatamente o casal passeou. Então decidi que iria andar a esmo por ali, como eles fizeram no filme, apreciando o clima de “praia” que o verão trazia para a beira do canal.

É no Donaukanal que os vienenses curtem o verão. Um navio-piscina estava ancorado perto da Schwedenplatz. Inúmeros bares e cafés, muitos flutuantes; bicicletas e rollerblades aos montes; grafiteiros preparando nova arte nos muros do canal. Uma vida alternativa acontecia na descida do canal enquanto a cidade lá em cima trabalhava.

Andar pelo Donaukanal me deu a plena sensação de dever cumprido em meu roteiro de fã. Encerraria ali minha jornada inspirada por Antes do Amanhecer. Para celebrar, resolvi encarar no fim da tarde uma roubada chavão que não aparece no filme: comer uma torta Sacher de chocolate.

Esta torta é confeccionada pelo Hotel Sacher, no centrão de Viena. Tinha adorado comê-la em 1997 – chocolate e café são meus fracos, afinal. Como esta torta consta em todos os guias de Viena, se tornou uma atração turística de top 10. Uma fila considerável com pessoas de todas as nacionalidades crescia na porta do hotel.

Improviso que não estava no script.

Fiz jus a meu papel de turista e encarei a fila monstruosa. Mas pus-me também a analisar o comportamento das pessoas. A rotatividade dentro do local era absurda. Não é interessante que numa cidade conhecida por seus inúmeros cafés maravilhosos, locais de atmosfera e serviço super-bons como o Sperl ou o Kleines estivessem relativamente vazios, e ali, onde o serviço era capenga por causa do volume de pedidos, a aglomeração era imensa? #MarketingTurístico101

Por outro lado, não deixa de ser instigante perceber que as pessoas não são bobas e sacam a roubada – mas ainda assim insistem (como eu). 100% das mesas pediam a torta. Dá pra entreouvir nos comentários das mesas vizinhas que muitos não a acham tão deliciosa assim. A maioria está ali apenas para ticar a torta do seu “Must-do em Viena”. E colocar no instagram.

De volta a Franziskanerplatz e sua estátua de Moisés.

Sentei, comi a torta (que não estava tão boa quanto lembrava), e em menos de 20 minutos saí à pé, na direção do meu hotel. Para contrabalancear a parada turística, voltei à querida Franziskanerplatz do Kleines Café, para um drink comemorativo de happy hour. As pessoas na praça, a atmosfera de tranquilidade e a lembrança especial de que o local fora parte da incrível jornada de amor de Jesse e Celine tornam o Kleines um dos meus cafés favoritos em Viena – quiçá no mundo.

Club Roxy.

Depois que anoiteceu, minha adrenalina ainda estava a mil: havia finalmente executado o pequeno sonho de refazer os passos de Antes do Amanhecer. A felicidade de realizar um sonho de cinema. The end?

Não. Animada que ainda estava pela conquista, encaminhei-me em direção a mais uma locação do filme, o Club Roxy – que estava fechado. No verão, o clube só abre super-tarde da noite. Ok, ver o club por dentro ficará mesmo pra próxima vez em Viena. Mas a cidade me oferecera outro presente na caminhada até o Roxy: passei em frente à cúpula dourada do Museu da Secessão de Klimt, um dos meus favoritos de Viena.

UM FINAL FELIZ

Mais de 30.000 passos em 24 horas, cerca de 20 km andados de lá e pra cá numa Viena diferente. Acho que o que mais me deixou feliz em completar esta jornada foi ter a oportunidade de me divertir conhecendo e destrinchando alguns pontos curiosos e interessantes de Viena que são pouco citados nas páginas dos guias tradicionais de viagem. Além de rever outros locais queridinhos.

Ficou faltando.

Faltaram alguns lugares do filme a ser visitados, principalmente por minha incapacidade de mapeá-los com precisão – mas sinceramente não me encanei com isso, podem ficar tranquilamente para uma próxima visita. Que haverá, porque Viena é destas cidades que a gente volta com vontade.

Meu pretexto para visitar Viena era me sentar nesta estátua. E qual é o seu? 😉

Outra vantagem foi perceber que, mesmo indo no verão, é possível visitar uma cidade entupida de visitantes sem se estressar com eles. Há sempre recantos vazios de contemplação. Andar como uma “turista local”, se é que esta conjunção de palavras infame é possível.

Antes do Amanhecer foi o pretexto-inspiração que me levou de volta a Viena. Obrigada, Linklater: fui atrás de seu filme e redescobri uma cidade encantadora, cheia de recantos subestimados. Um final feliz para esta malla pelo mundo.

Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais:

Esta foi uma semana atípica pelas bandas este blog, cheia de susto e perplexidade.

Então para fechar com “chave de ouro” esta atípica semana, nada melhor que… outra notícia bizarra. 😀

Sexta Sub - Grande Barreira de Corais na berlinda

Desta vez, vindo da Austrália. Eu já comentei aqui inúmeras vezes o quanto a situação da Grande Barreira de Corais Australiana é grave. Não está morta (ainda), mas está pedindo desesperadamente pelamordedarwinfaçamalgumacoisa. Qualquer cientista que trabalhe com corais sabe disso – e esta mensagem de apelo da Grande Barreira de Corais tem sido até bem divulgada pela mídia.

A bizarrice cereja do bolo da semana fica por conta do presidente da Associação de Operadores de Turismo dos Parques Marinhos australianos, que culpa os cientistas por divulgarem na mídia suas pesquisas sobre a situação penosa da Grande Barreira de Corais e com isso impactarem a vinda de turistas da região. Pelo visto, o problema não são as empresas de combustíveis fósseis, nosso modo hiper-consumista de viver e usar os recursos naturais, nossa fome de carvão; o problema é que os cientistas estão estudando os corais e descobrindo que estão na pindaíba. É simplesmente deprimente esta falta de noção periclitante do presidente da associação de operadores de turismo.

Na própria reportagem do Guardian, um operador que trabalha com turismo australiano na área confronta o tal presidente de que é exatamente o contrário: as pessoas têm mais interesse na Grande Barreira quando elas percebem a gravidade do problema – e querem ajudar e se conscientizam, etc.

E mesmo que seja o caso de que o turismo diminuirá à medida que a Barreira for sucumbindo ao aquecimento global… ainda assim, culpar o cientista por estudar o problema é tapar o sol com a peneira e achar que não vai se queimar.

Depois desta, só um fim de semana para desanuviar as perplexidades que rolaram nos últimos dias…

Tudo de bom sempre.

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