
Para nos prepararmos para a viagem de dezembro pelo Pacífico Sul, nós pesquisamos por mais de 3 meses sobre cada local por onde passaríamos. Passeios, onde mergulhar, o que provar da culinária, etc. E buscando informações sobre Noumea, a dica principal da Silvia e de todos os guias que consultei era uma visita ao Centro Cultural Jean-Marie Tjibaou. De modo que assim que chegamos em Noumea, depois de mergulhar, fomos direto para o local.
O Centro Cultural Tjibaou leva esse nome em homenagem a Jean-Marie Tjibaou, líder kanak (povo melanésio que habita a Nova Caledônia) que lutou pela independência da Nova Caledônia. Apesar de pregar a não-violência, Tjibaou foi assassinado em 1989 por outro líder kanak. Como nome mais proeminente da cultura kanak, quando o governo francês decidiu construir na capital Noumea um Centro Cultural que valorizasse e divulgasse a cultura kanak, Tjibaou foi imediatamente lembrado. E o Centro Cultural foi então batizado com seu nome.

A influência européia na Nova Caledônia, entretanto, não se deixa esquecer. O Centro Cultural Tjibaou é acima de tudo uma obra de arte arquitetônica. Inspirado na forma das casas tradicionais kanaks, as cases, que são altíssimas, no design do prédio elas estão aparentemente "cortadas", para simbolizar a união das 2 culturas predominantes da Nova Caledônia: os kanaks e os franceses.
O Centro Cultural foi desenhado pelo arquiteto genovês Renzo Piano - o mesmo que bolou o Aeroporto de Kansai no Japão, o Centre Georges Pompidou em Paris e o prédio da Academia de Ciências da Califórnia. Premiado em 1998 com o "oscar" da arquitetura, o Prêmio Pritzker, Piano optou em Noumea pelo design arrojado todo feito em madeira (mas que nos dá de longe a sensação de metal) do Centro Cultural, homenageando e celebrando a própria cultura kanak, já que cada prédio do Centro Cultural lembra as cases formando uma "vila".

Maquete geral do Centro Cultural Tjibaou.

Exposição da maquete de construção do Centro Tjibaou. Abaixo, os desenhos originais de Renzo Piano viraram a decoração de uma das janelas da mesma sala.

É muito bacana. Mas num nível de bacanice que eu não esperava. Por mais que visse fotos, tinha uma idéia bem diferente do Centro - que seria mais um museu-galeria. É também um museu, mas não é só isso. Dentro do Tjibaou, cada case tem uma "função" diferente. Há bibliotecas, salas de cinema e anfiteatro, galerias de arte e registros históricos. Também há um jardim agradável e uma trilha dentro de um manguezal onde são indicadas algumas das principais plantas típicas da região.

Biblioteca com ênfase nas obras kanaks.
Além de uma tradicional case kanak mesmo, com as esculturas kanaks no jardim e tudo. Ali há apresentações tradicionais, exposições de arte, grupos de discussão, etc. A sensação que me deu foi de um espaço vivo, e isso foi o mais bacana.

Case tradicional kanak.

Detalhe decorativo do poste de sustentação dentro da case kanak.

Esculturas-totem kanaks no jardim. Os panos amarrados são ofertas, que ainda são tradicionalmente feitas na Nova Caledônia, principalmente nos vilarejos mais afastados. Ao visitar um desses locais, o visitante leva um pedaço de pano como agrado pela recepção da comunidade a ele.
Eu já tinha chegado a um dia e meio em Noumea, vinda de Fiji, mas foi só ali, naquele jardim de frente para a obra-prima da arquitetura, é que finalmente emocionadíssima me caiu a ficha: "sim, estou finalmente de frente ao monumento mais esperado da viagem, realizando um sonho."

Uma Malla (e a Silvia) no Centro Cultural Tjibaou, no momento em que a ficha caiu.
Passeamos uma tarde ensolarada inteira pelo Tjibaou, em ritmo de admiração total. O Centro fica há uns 10 minutos de carro do centro de Noumea, numa península de frente pro mar.

Visto de trás.
Do alto, a vista é ainda mais impressionante. Além da inspiração das cases, a forma como foram construídas à beira-mar no alto do morro lembra também os pinheiros que formam um paredão por boa parte do litoral da Nova Caledônia, como se fossem de longe um gráfico de sismos.

Não sei o quanto viagem minha na maionese é, mas acho que Piano no fundo uniu a inspiração cultural kanak à inspiração natural pinheirística ao redor numa só obra de arte. Extremamente harmônico com a paisagem e simplesmente inesquecível.
E, do alto de um morro lateral ao Centro Cultural, uma estátua de Jean-Marie Tjibaou, como a olhar de longe o movimento, lembra a todos que a cultura kanak poderia ser mais conhecida e apreciada.

Uma visita de sonho, para ficar marcada na memória.
Tudo de bom sempre.
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Para viajar mais...
- Uma entrevista com Emmanuel Kasarherou, diretor cultural do Centro Tjibaou, sobre detalhes dos jardins, da arquitetura e da cultura kanak.
- E pra não dizer que não falei das flores... ou melhor, do pênis. Os kanaks antepassados têm a tradição de decorar o pênis, como vários outros povos melanésios - fotos de diversos adornos típicos de pênis aqui. Há uma lenda na cultura kanak de que um gigante se apaixonou por uma deusa, e no processo de se relacionar com a moça, criou um vulcão e uma das passagens da barreira de coral em frente a Noumea com seu pênis. A escultura abaixo é em homenagem a tal lenda e fica exposta na área principal do Centro Cultural. :)

UPDATE: A Sibele deixou no twitter um link pra um artigo da revista Arquitextos muito bacana sobre a arquitetura do Centro Cultural Tjibaou. Muito legal! Valeu, Sibele!
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